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A anta na câmera de fauna: pegadas, trilhas e o comportamento do maior mamífero terrestre da América do Sul

Uma anta adulta solitária parada na beira de um córrego dentro de mata fechada, bebendo água ao entardecer

Você quase nunca vê o animal. A anta é grande — o maior mamífero terrestre da América do Sul, capaz de chegar a 300 kg —, mas é solitária, silenciosa e sai sobretudo à noite, então o que sobra dela é quase sempre um rastro na lama à beira de um riacho, uma pilha de fezes num ponto que ela usa repetidas vezes, uma trilha aberta na mata fechada. Para quem monitora fauna, isso é o normal, não a exceção: com espécies grandes e esquivas, você aprende a espécie pelo que ela deixa para trás muito antes de vê-la passar diante da câmera.

A resposta curta, se foi por isso que você chegou aqui: a pegada da anta é inconfundível entre os grandes mamíferos brasileiros porque a anta é o único perissodáctilo (animal de número ímpar de dedos) do país. A pata de trás imprime três dedos largos, curtos e arredondados nas pontas, com o dedo do meio sempre maior; a da frente pode mostrar um quarto dedo em solo mole. Nada mais na mata deixa essa marca. Some a isso as latrinas — a anta defeca de forma concentrada em locais fixos, muitas vezes perto d'água — e as trilhas batidas junto a córregos, e você tem os três sinais que a entregam. O resto deste artigo é sobre como ler esses vestígios, separá-los dos do queixada, do veado e da capivara, entender por que a anta é tão noturna e semiaquática, e como uma câmera de fauna transforma esses rastros no acompanhamento contínuo de uma espécie Vulnerável.

Você não vê a anta. Você lê a pegada de três dedos que ela deixou na lama — e, com o tempo, lê essa lama com a mesma segurança de um rastro na neve.

A pegada: o sinal que nenhuma outra espécie brasileira deixa

Comece pelo rastro, porque é o mais diagnóstico. Aqui a anta tem uma vantagem que quase nenhum outro grande mamífero neotropical oferece: ela pertence a uma ordem inteiramente à parte. A Embrapa resume a base biológica numa passagem que vale ter na cabeça: os perissodáctilos — os maiores mamíferos terrestres — têm o peso do corpo “apoiado nos dedos centrais”, e “o eixo principal do pé passa através do terceiro dedo, que é o mais longo”; e “no Brasil esses animais estão representados apenas pela anta”. Todos os outros ungulados que você vai fotografar — veados, cateto, queixada — são artiodáctilos, que se diferenciam “pela presença de um número par de dedos com cascos”. Ou seja: número ímpar de dedos com apoio central é anta; número par é qualquer um dos outros. É a diferença estrutural que torna a pegada da anta impossível de confundir, uma vez que você sabe o que procurar.

Na prática de campo, isso vira uma marca bem concreta. O guia de campo do IPAM Amazônia descreve a pegada com precisão: “a pegada de uma Anta apresenta, frequentemente, três dedos largos e curtos, arredondados nas extremidades e com o dedo médio sempre maior que os demais”. É a impressão da pata traseira. A da frente carrega um detalhe a mais — “dependendo das condições do solo é possível notar a presença de um quarto dedo na parte posterior”. Daí a regra prática que dá título a tantas fichas: três dedos atrás, quatro na frente. O quarto dedo dianteiro é vestigial e só toca o chão quando o substrato é mole o bastante para registrá-lo, então não se assuste se ele não aparecer numa pegada em terreno firme.

E há o tamanho, que sozinho já elimina metade das confusões. A pegada da anta mede cerca de 12 a 15 cm de comprimento por 12 a 14 cm de largura. Não existe cervídeo nem pecarídeo brasileiro que chegue perto disso — a pegada da onça-parda, por comparação, tem 8 a 9 cm; a de veados e catetos é bem menor e afilada. Uma marca de casco grande, larga, redonda, com três dedos rombos e o do meio maior, é anta, e ponto.

Número ímpar de dedos, apoio no dedo central, pegada de 12 a 15 cm: na fauna brasileira, essa combinação só existe na anta.

Vale lembrar que a pegada não serve só para dizer “passou uma anta aqui”. Um estudo na Mata Atlântica levou a leitura de rastros ao extremo e usou a Técnica de Identificação de Pegadas (FIT) para contar indivíduos: a partir de 440 pegadas coletadas em 46 trilhas, os pesquisadores identificaram um mínimo de 29 antas distintas, sem capturar um único animal. O trabalho trata a anta como uma “arquiteta da paisagem” e mostra que a pegada, bem fotografada e medida, é uma ferramenta de censo, não apenas um exercício de identificação. Para quem monitora um lugar, isso é a ponte natural entre o rastro no chão e o dado de população.

O queixada, o veado e a capivara: separando os sinais

Onde a anta divide o terreno com outros grandes herbívoros — e no Brasil ela quase sempre divide —, convém saber distinguir os vestígios, porque é fácil um sinal de pecarídeo ou de capivara se passar por anta se você olhar rápido. A boa notícia é que a base perissodáctilo-versus-artiodáctilo resolve a maioria dos casos, e alguns traços fecham o resto.

Queixada e cateto. São os “porcos-do-mato” nativos, e ambos são artiodáctilos: deixam cascos “arredondados” que desenham dois dígitos “levemente separados”, bem menores que a marca da anta. Mas a diferença mais útil na câmera não é a pegada — é o grupo. O queixada (Tayassu pecari) anda em enormes bandos; a ficha do ICMBio para a espécie o descreve exatamente assim, notando que “essa espécie é a primeira a desaparecer em resposta a pressões humanas” e que forma os “enormes bandos” característicos. A anta, ao contrário, é solitária. Uma foto de um único grande animal de focinho prênsil é anta; uma foto de uma tropa compacta de dezenas de bichos menores é queixada. Vale a nota de contexto: o queixada também é Vulnerável e protegido — a ficha o classifica como Vulnerável (VU) pelos critérios A4cd —, então saber diferenciá-los importa para além da curiosidade.

Veados. Os cervídeos brasileiros (veado-mateiro, veado-catingueiro e outros) aparecem lado a lado com a anta nos guias de pegadas justamente porque a dúvida é comum. Mas são artiodáctilos de casco afilado e em ponta, e todos bem menores que a anta. A regra do número de dedos e o tamanho resolvem: casco pequeno, fendido e em ponta é veado; marca grande, redonda, de três dedos rombos é anta.

Capivara. Aqui o detalhe é elegante e útil, porque a capivara também frequenta a beira d'água onde a anta anda. O guia do IPAM registra a diferença: a pegada dianteira da capivara mostra quatro dedos, enquanto a traseira apresenta apenas três — quase o inverso da assinatura da anta (“três atrás, quatro na frente”), e num animal muito menor. Some o tamanho e a confusão desaparece.

EspécieOrdem / dedosTraço decisivo na câmera ou no rastro
**Anta (Tapirus terrestris)**Perissodáctilo (ímpar)Pegada grande (12–15 cm), 3 dedos rombos atrás (meio maior), 4º na frente em solo mole; animal solitário, focinho prênsil
Queixada / catetoArtiodáctilo (par)Cascos pequenos e arredondados; sobretudo, grandes bandos (queixada) — a anta é solitária
Veados / cervídeosArtiodáctilo (par)Casco pequeno, fendido e em ponta; animal bem menor que a anta
CapivaraRoedorPegada pequena; 4 dedos na frente, 3 atrás — o inverso da anta, e minúscula em comparação
A regra do número de dedos faz o trabalho pesado: ímpar com apoio central é anta; par é veado, cateto ou queixada.

As latrinas e as trilhas: os outros vestígios que a anta deixa

Pegada de anta na lama molhada da margem de um rio, com três dedos largos e arredondados atrás e um quarto dedo visível na dianteira

Além da pegada, dois sinais recorrentes ajudam a confirmar a presença da anta e a escolher onde apontar a câmera.

O primeiro são as latrinas. A anta não espalha fezes ao acaso: ela defeca de forma concentrada em pontos fixos, retornando a eles ao longo do tempo — o que os naturalistas chamam de latrinas comunitárias. Uma pilha grande e recorrente de fezes cheias de sementes, muitas vezes na água ou em sua margem, é um forte indício de anta. E essas latrinas têm uma vida própria fascinante que a câmera captou bem: no Parque Estadual Carlos Botelho, em São Paulo, um estudo com armadilhas fotográficas flagrou esquilos e quatro espécies de aves de floresta — entre elas o raro macuco (Tinamus solitarius) — forrageando regularmente nas latrinas da anta, catando e comendo as sementes. Curiosamente, alguns sabiás preferiam visitar a latrina alguns dias depois de a anta defecar. Para quem monitora, a lição é dupla: a latrina é um sinal seguro de anta, e é também um ponto de alta atividade de fauna — um ótimo lugar para uma câmera.

O segundo são as trilhas junto d'água. A anta é fortemente ligada a ambientes úmidos, e onde ela vive deixa caminhos batidos ligando a mata aos córregos. Um estudo de ocupação na região da Orinóquia mostrou de forma quantitativa o que os guias descrevem: a cobertura de floresta densa foi um “preditor positivo crítico da ocupação da anta”, e a espécie tem “maior ocupação em floresta densa e perto de riachos” — o trabalho conclui pela “importância das florestas densas e dos corpos d'água” para a espécie. A própria Embrapa nota que a anta “vive em florestas altas e fechadas, sempre nas proximidades da água”. Na prática, isso te diz onde procurar rastro e onde instalar a câmera: as passagens naturais entre a mata fechada e a água.

Uma ressalva honesta sobre um sinal muito citado: os chafurdeiros ou banheiras de lama. A anta de fato se relaciona intensamente com a água e a lama, e é plausível que use poças para se refrescar e se livrar de parasitas — mas, ao contrário das latrinas, não há um estudo científico dedicado a documentar os chafurdeiros da anta. Então trate um revolvimento de lama perto d'água como um indício de apoio, a ser confirmado por pegada ou por foto, e não como prova isolada. O que a ciência sustenta com firmeza é a forte associação da anta com a água (S19, S32) e, curiosamente, uma adaptação reprodutiva a ela: o manual veterinário do grupo de especialistas em antas observa que o ambiente vaginal da fêmea fica “protegido quando o animal permanece na água” — um lembrete de quão aquática a espécie é.

O comportamento na câmera: solitária, noturna, semiaquática

Se você deixar uma câmera num bom ponto de anta, o retrato que ela vai montar é bastante consistente, e vale saber o que esperar.

Primeiro, a anta é solitária. Ao contrário do queixada e de seus bandos, o normal é ver um único animal por vez; filhotes acompanham a mãe, e o manual do grupo de especialistas nota que “ocasionalmente, filhotes de um ano são avistados acompanhando suas mães”. Uma foto com um único grande herbívoro é a regra, não a exceção.

Segundo, a anta é predominantemente noturna. O número mais preciso vem de um estudo de câmera na Mata Atlântica: as antas foram “noturnas o ano todo, com 89% dos registros entre 18h e 7h”. No Pantanal, dois estudos multianuais de armadilhas fotográficas (2010–2017) encontraram padrões de atividade “semelhantes e predominantemente noturnos” nas áreas norte e sul. O mesmo trabalho registrou um comportamento revelador: as antas mostraram “evitação de assentamentos e gado”, e a espécie parece ter “pouca plasticidade para alterar seu comportamento”, mantendo padrões de atividade parecidos sob diferentes níveis de perturbação humana. Em outras palavras, a anta lida com a presença humana mais evitando o espaço do que trocando a hora — o que faz da noite o horário em que a câmera a pega.

Terceiro, ela anda muito e usa áreas grandes. Um conjunto de dados de rádio e GPS acumulado ao longo de 22 anos em três biomas brasileiros (Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica) estimou uma área de vida média de 8,31 km² — variando de 1,0 a quase 29,7 km² conforme o indivíduo. E as antas “caminham até 11 km por dia”. Isso significa que um único animal cruza um mosaico de manchas de proteção diferentes, e que a câmera fixa numa passagem vai registrar indivíduos que percorrem uma paisagem bem maior do que o seu enquadramento.

E, de vez em quando, a câmera flagra algo inesperado. Na Colômbia, pesquisadores documentaram um mutualismo entre o caracará-de-cabeça-amarela e a anta: a ave remove “ectoparasitas, como carrapatos e larvas de moscas, da pele da anta”, numa interação que reduz o risco de transmissão de doenças. Não é um comportamento que você vá ver todo dia, mas é o tipo de registro que só a paciência de uma câmera de fauna captura.

Espere um único animal, à noite, na beira d'água — e, se tiver sorte, uma cena que a observação direta jamais alcançaria.

Habitat e biomas: onde a anta vive no mundo lusófono e além

Uma anta seminadando num rio de mata fechada, com apenas a cabeça e o dorso arredondado acima da superfície da água

A anta tem uma distribuição ampla, e nomeá-la por bioma ajuda a saber onde procurar. No Brasil, ela ocorre — ou ocorria — em praticamente todos os grandes biomas, e cada um traz uma nuance para o monitoramento.

Na Amazônia está o maior estoque de habitat remanescente da espécie: uma síntese de distribuição para toda a América do Sul aponta que “a região amazônica contém... o habitat remanescente mais extenso para a anta”, ainda que com altas taxas de perda fora das áreas protegidas. É também onde a leitura de rastros e as câmeras se combinam melhor no campo — um estudo no Amazonas brasileiro concluiu, sem rodeios, que “anta e veados podem ser bem monitorados usando armadilhas fotográficas e levantamentos de rastros e sinais”.

No Pantanal, a anta atinge densidades notáveis quando protegida: um estudo clássico estimou 0,58 ± 0,11 antas/km² por armadilhas fotográficas (e 0,55/km² por transecção linear), concluindo que certos hábitats do Pantanal “podem sustentar densidades populacionais relativamente altas de antas quando estes animais são protegidos da caça”. O bioma é um dos redutos da espécie, e os longos conjuntos de dados de movimento vêm em boa parte de lá.

Na Mata Atlântica, onde 90% da floresta original já desapareceu, a anta sobrevive em manchas — e é justamente ali que saíram tanto o dado dos 89% de atividade noturna quanto o censo por pegadas dos 29 indivíduos. No Cerrado, a INCAB monitora a espécie desde 2008 e documenta suas ameaças. E na Caatinga, a história recente é surpreendente: a anta, dada como regionalmente extinta, foi reencontrada — em expedições que, desde 2023, contaram com a ajuda decisiva dos moradores locais. A síntese sul-americana de distribuição já apontava a Caatinga como zona de baixa adequação e provável extinção local, o que torna a redescoberta ainda mais significativa. Para o monitoramento, a lição é clara: em biomas onde a anta é rara ou dada como sumida, a câmera de fauna — muitas vezes nas mãos de cidadãos-pesquisadores — pode ser o que prova que ela ainda está lá.

Fora do Brasil, a anta se estende por boa parte da América do Sul tropical, e os estudos de outros países (como os da Orinóquia colombiana) reforçam o mesmo retrato de habitat: floresta densa e água. O quadro é pan-neotropical, mas os dados mais ricos — e os biomas nomeados acima — vêm do país onde a espécie é mais estudada.

Uma anta capturada de noite por uma câmera de fauna, com os olhos brilhando em infravermelho numa trilha de mata fechada

A câmera de fauna: como monitorar a anta no seu terreno

Para uma espécie grande, esquiva e noturna, a câmera de fauna não é apenas conveniente — é o método certo. Ela é não invasiva, funciona 24 horas por dia sem perturbar o animal e capta exatamente aquilo que a caminhada diurna perde. E a anta é, talvez, o melhor exemplo brasileiro de espécie-bandeira de foto-monitoramento: a INCAB (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira), o projeto de conservação de antas mais duradouro do mundo, ao longo de 30 anos “identificou e monitorou 600 indivíduos por meio de armadilhas fotográficas espalhadas por todo o país” — além de capturar 571 antas e monitorar 160 por colares de telemetria.

Como transformar isso em prática no seu terreno? Os pontos de partida seguem direto da ecologia da espécie:

O ganho não para em “tem anta aqui”. Da mesma forma que a INCAB reconhece indivíduos e o estudo de FIT contou 29 antas por pegadas, a câmera permite acompanhar quem passa, a que hora, se há filhote acompanhando a mãe, e como o uso do ponto muda ao longo das estações — tudo sem tocar no animal.

A ecologia: a “jardineira da floresta” e a ameaça das estradas

Monitorar a anta ganha um sentido maior quando se entende o papel dela no ecossistema — e por que ela está ameaçada.

A anta é um herbívoro generalista de apetite enorme: um estudo de seleção alimentar registrou o consumo de 61 espécies de plantas, e descreveu a anta como consumidora de “uma ampla variedade de folhas, frutos e vegetação aquática”, atuando como ramoneadora, dispersora e predadora de sementes. É dessa dieta que nasce o apelido de “jardineira da floresta”. Como come muito fruto e anda muito, a anta transporta sementes por longas distâncias e as deposita, prontas para germinar, em suas latrinas. E não é só transporte: um estudo na transição Amazônia-Cerrado mediu que a passagem pelo intestino da anta melhora a germinação — “a endozoocoria pela anta esteve associada a maior capacidade de germinação e a um tempo de germinação acelerado em comparação com sementes despolpadas manualmente”, com “porcentagem de germinação estatisticamente maior” para todas as seis espécies testadas. A Embrapa lista a anta, ao lado do cateto e do queixada, entre os mamíferos terrestres que dispersam sementes. Perder a anta, portanto, é perder um dos maiores plantadores de árvores da floresta.

A maior ameaça cotidiana à anta, junto com a perda de habitat e a caça, tem um nome concreto: atropelamento. A avaliação da IUCN é direta — “o atropelamento está se tornando uma ameaça importante para a anta no Cerrado (Brasil), no Pantanal (Brasil) e na Mata Atlântica”. Os números da INCAB dão a dimensão: em apenas sete trechos de estradas do Cerrado, os pesquisadores encontraram 117 antas mortas por atropelamento, inclusive filhotes. Na BR-163, no Pará — apelidada de “estrada da morte” —, foram registrados 19 atropelamentos de antas num trecho que corta duas unidades de conservação, com 16 antas mortas só entre 2015 e 2017. Para uma espécie de reprodução lenta — maturidade sexual por volta dos dois anos e, em geral, um único filhote por gestação —, cada animal morto na estrada é uma perda que a população demora a repor.

Comparação de tamanho lado a lado: uma anta solitária e grande, um bando compacto de queixadas menores e uma única capivara, na mesma escala

A conservação: uma espécie Vulnerável que a câmera ajuda a proteger

Tudo isso se soma num status que é preciso levar a sério. A anta é classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da IUCN, sob os critérios A2cde+3cde, por uma “redução populacional contínua estimada em pouco mais de 30% nas últimas três gerações (33 anos)”, em razão de perda de habitat, caça ilegal, atropelamento e competição com o gado. A avaliação lembra que “90% das florestas atlânticas já desapareceram” e que, no nordeste, as antas só persistem dentro de áreas protegidas.

É aqui que o monitoramento por câmera deixa de ser um passatempo e vira instrumento de conservação. Foi câmera e trabalho de campo que reencontraram a anta na Caatinga, onde a davam por extinta. É câmera que sustenta o acompanhamento de 600 indivíduos pela INCAB. E é a leitura de pegadas, transformada em censo pela técnica FIT, que confirma redutos de população sem tocar num único animal. Cada foto noturna de uma anta na beira de um córrego — e cada pegada de três dedos que você aprende a reconhecer na lama — é um dado a mais sobre uma espécie que precisa de todos os dados que conseguirmos reunir.

Perguntas frequentes

Como é a pegada da anta e como diferencio da de um veado ou do queixada?

A anta é o único perissodáctilo (número ímpar de dedos) do Brasil: a pata traseira imprime três dedos largos, curtos e arredondados, com o do meio maior, e a dianteira pode mostrar um quarto dedo em solo mole. A pegada é grande — 12 a 15 cm de comprimento por 12 a 14 cm de largura. Veados, cateto e queixada são artiodáctilos, com cascos menores e fendidos (em ponta, no caso dos veados). O tamanho e o número de dedos resolvem quase todos os casos.

Por que quase nunca vejo antas, mesmo achando pegadas e fezes?

Porque a anta é solitária e predominantemente noturna: na Mata Atlântica, 89% dos registros de câmera ficaram entre 18h e 7h, e no Pantanal ela evita ativamente assentamentos e gado. Some a isso o fato de ela andar até 11 km por dia numa área de vida grande, e você entende por que o rastro aparece muito antes do animal.

O que é uma latrina de anta e por que ela importa?

É um ponto fixo onde a anta defeca de forma concentrada e repetida, muitas vezes na água ou em sua margem — as chamadas latrinas comunitárias. Além de ser um sinal seguro da presença da anta, a latrina atrai muita outra fauna que vem forragear as sementes, o que a torna um excelente lugar para instalar uma câmera.

A anta é aquática?

Ela é fortemente semiaquática: sua ocupação é maior em floresta densa e perto de riachos, ela se alimenta inclusive de vegetação aquática, e tem até adaptações reprodutivas à água. Procurar rastro e apontar a câmera nas passagens entre a mata e a água é a melhor estratégia.

A câmera de fauna serve para mais do que confirmar que há anta?

Sim. Ela permite identificar indivíduos, acompanhar horários de atividade, ver se há filhote com a mãe e estimar densidade — de forma não invasiva. A INCAB monitorou 600 antas por armadilhas fotográficas, e um estudo por pegadas contou 29 indivíduos sem capturar nenhum.

Qual é o status de conservação da anta?

Vulnerável na Lista Vermelha da IUCN, por uma redução populacional estimada em mais de 30% em três gerações (33 anos), devido a perda de habitat, caça ilegal, atropelamento e competição com o gado. O atropelamento é uma ameaça crescente no Cerrado, no Pantanal e na Mata Atlântica.