Um vulto de quatro patas cruza a clareira às três da manhã, a câmera dispara, e no dia seguinte você fica olhando para o quadro tentando decidir: é bicho do mato ou é o cachorro de alguém? Nas paisagens neotropicais essa dúvida é mais comum do que parece, porque o Brasil e os países vizinhos têm um punhado de canídeos silvestres que, num flash noturno em preto e branco, se parecem entre si — e todos se parecem, em maior ou menor grau, com um cão doméstico solto. Separar um do outro não é preciosismo de biólogo. Contar como cachorro-do-mato o que era um cão feral, ou vice-versa, distorce o que você acha que tem na área e mascara um problema de conservação real.
A resposta curta, se foi por isso que você chegou aqui: os três canídeos que mais aparecem na câmera no Brasil são o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), pequeno-médio e acinzentado; o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), alto, ruivo e de pernas pretas compridas; e, no sul, o graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), parecido com o cachorro-do-mato mas maior e de hábito diurno. O detalhe que resolve a maior parte dos casos é a combinação de porte, formato das pernas, tamanho das orelhas e horário — e, quando há pegada no barro, as marcas de unhas, que os canídeos deixam e os felinos não. Um alerta que vale gravar antes de tudo: o lobo-guará não é um lobo verdadeiro nem uma raposa — é a única espécie viva do seu gênero, geneticamente distinta de cães, lobos, coiotes e raposas. O resto deste artigo é sobre como fazer essa leitura com segurança, biooma por bioma, e por que confundir esses animais com cães soltos é uma preocupação sanitária e genética que a sua câmera pode ajudar a monitorar.
Num flash noturno, quase todo canídeo vira “um cachorro qualquer”. Aprender a olhar as pernas, as orelhas e a hora muda tudo.
Os três protagonistas: quem realmente aparece na sua câmera
Antes de qualquer regra de campo, vale conhecer o elenco. No Brasil, três canídeos respondem pela grande maioria dos registros de câmera, e cada um tem uma silhueta que, uma vez aprendida, dificilmente engana.
O cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é, disparado, o mais comum — “the best known of the Brazilian canids”, nas palavras do Instituto Pró-Carnívoros. É um bicho de porte pequeno a médio: 57 a 100 cm de comprimento total e 4,5 a 8,5 kg, com pelagem clara e variável, misturando tons de cinza e marrom, muitas vezes amarelados. Repare em três coisas: orelhas curtas e arredondadas, com tons avermelhados; patas escuras; e uma cauda relativamente longa e escura. Ocorre em quase todos os biomas brasileiros — a exceção é boa parte da Amazônia, onde entra outra espécie, o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis). É o canídeo que mais anda perto de gente, tolera ambientes alterados, come de tudo (frutos, pequenos vertebrados, insetos, caranguejos, carniça e, perto de casas, aves de criação e lixo) e por isso é também o que mais aparece atropelado.
O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é impossível de confundir quando bem visto — e é justamente por isso que a câmera ajuda tanto, já que o bicho é esquivo e noturno. É o maior canídeo da América do Sul, com corpo de 95 a 115 cm, cernelha de cerca de 90 cm e peso de 20 a 36 kg. A assinatura são as pernas pretas, longas e finas — uma adaptação para enxergar por cima do capim alto — somadas à pelagem ruiva a alaranjada, às orelhas enormes e a uma crina erétil na nuca. Tem uma mancha branca na garganta e a ponta da cauda branca desde filhote. A Fauna Digital da UFRGS resume o visual num adjetivo perfeito: pernas compridas e orelhas longas dão a ele um aspecto “desengonçado”.
E aqui vem o ponto que confunde muita gente por causa do nome. O lobo-guará não é um lobo verdadeiro. Como explica o (o)eco, “lobo? Só no apelido. Raposa? Também não” — a espécie “não [pertence] aos gêneros Canis (cães, lobos, coiotes e chacais) ou Vulpes (raposas)” e é “um gênero com espécie única”. O Smithsonian coloca do mesmo jeito: o lobo-guará “looks like a fox, is called a wolf and is closely related to neither” — estudos genéticos mostram que “it is neither fox nor true wolf, but a distinct species. It is the only member of its genus, Chrysocyon”. Seu parente vivo mais próximo, curiosamente, é o cachorro-vinagre. Então, quando for anotar a espécie, resista à tentação de escrever “lobo”: é uma linhagem à parte.
O terceiro é regional. No sul do Brasil, sobretudo no Pampa e nos Campos de Cima da Serra, entra o graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), também chamado de raposa-do-campo ou “Pampa fox”. Ele é o sósia mais traiçoeiro do cachorro-do-mato, mas há diferenças: é um pouco maior — pouco mais de um metro —, tem pelagem cinza-amarelada, patas longas e finas revestidas de pelo curto e claro, e orelhas grandes em relação ao corpo. E, decisivamente para quem lê horários de câmera, o graxaim-do-campo é predominantemente diurno, enquanto o cachorro-do-mato é crepuscular-noturno. Só esse contraste já separa muitos registros.
O lobo-guará não é lobo nem raposa. É uma linhagem só sua — a única espécie viva do gênero Chrysocyon.
Lado a lado: a tabela que separa os três
Quando os três compartilham a paisagem — o que acontece nas transições entre Cerrado, Pampa e Mata Atlântica —, vale ter os traços decisivos à mão. Nenhuma característica isolada resolve tudo; é a combinação que fecha a identificação.
| Traço | Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) | Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) | Graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus) |
|---|---|---|---|
| Porte | Pequeno-médio, 57–100 cm, 4,5–8,5 kg | Grande, cernelha ~90 cm, 20–36 kg | Pequeno-médio, pouco mais de 1 m; maior que o cachorro-do-mato |
| Pernas | Curtas, escuras | Muito longas e pretas — o traço mais óbvio | Longas e finas, pelo claro |
| Orelhas | Curtas, arredondadas, tons avermelhados | Enormes, eretas | Grandes em relação ao corpo |
| Pelagem | Cinza-amarronzado, variável, amarelado | Ruiva/alaranjada; crina, patas e focinho pretos; ponta da cauda branca | Cinza-amarelada |
| Horário | Crepuscular-noturno | Noturno, com picos no crepúsculo/alvorada, sensível à temperatura | Diurno |
| Onde | Quase todos os biomas, menos boa parte da Amazônia | Cerrado, Pampa, Chaco; raro no Pantanal e Mata Atlântica | Pampa e Campos de Cima da Serra (sul) |
Guarde a lógica por trás da tabela: o lobo-guará se entrega pelo porte e pelas pernas — nenhum outro canídeo brasileiro é tão alto nem tão “de pernas de pau”. O graxaim-do-campo se separa do cachorro-do-mato pelo tamanho ligeiramente maior e, principalmente, pelo horário diurno. E o cachorro-do-mato é o “padrão” contra o qual você compara os outros: médio, compacto, orelhas curtas, ativo à noite.

Os outros canídeos que podem surpreender
Fora do trio principal, alguns canídeos silvestres aparecem com menos frequência, mas convém reconhecê-los para não anotar errado — especialmente porque um deles é uma raridade que só existe aqui.
No Cerrado e em suas transições vive a raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), o único canídeo endêmico do Brasil. É um dos menores cães selvagens do país — 2,7 a 4 kg, 58 a 64 cm mais uns 32 cm de cauda — de pelagem curta, cinza-clara no dorso e cinza-amarelada na barriga (daí “hoary fox”, raposa grisalha, em inglês), com orelhas e patas levemente avermelhadas. Câmeras já estenderam o que se sabia da sua distribuição: os primeiros registros fotográficos num ambiente xérico de transição Caatinga–Cerrado, na Bahia, empurraram sua ocorrência conhecida cerca de 100 km para leste. Ela é fácil de confundir: como resume o (o)eco, “para o olho destreinado, a raposa-do-campo é muito parecida com outros dois canídeos do Cerrado”. O detalhe que a entrega é a mancha negra na base da cauda — peculiar a todas as espécies de Lycalopex — somada à ponta da cauda preta, o que a separa do cachorro-do-mato; do graxaim-do-campo, a diferença é o tamanho (o graxaim é maior, com cabeça, focinho e peito mais robustos).
Se a sua câmera está na Amazônia, o elenco muda radicalmente. A bacia amazônica abriga apenas dois canídeos silvestres: o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis), endêmico da região, e o cachorro-vinagre (Speothos venaticus), de distribuição ampla mas muito fragmentada. Ambos são esquivos e pouco estudados — tanto que uma campanha recente de armadilhamento fotográfico no sudeste do Peru, com mais de 40 mil armadilhas-dia, rendeu 1.115 detecções independentes de A. microtis e só 11 de S. venaticus, os maiores totais já relatados para qualquer uma das espécies num único sítio. Ou seja: câmera na Amazônia raramente vai flagrar cachorro-do-mato “comum” — o Cerdocyon some justamente ali.

A pegada: como separar canídeo de felino (e do cão de casa)
Quando a foto deixa dúvida, a pegada no barro costuma resolver — desde que você saiba o que procurar. E há um divisor de águas que quase nunca falha.
A regra de ouro é a unha. Canídeos — cachorro-do-mato, lobo-guará, cachorro-vinagre e também o cão doméstico — andam com as garras expostas, então suas pegadas mostram as marcas das unhas à frente dos dedos. Os felinos, com garras retráteis, recolhem-nas ao caminhar: a pegada de onça-parda, onça-pintada ou jaguatirica traz “quatro dígitos … sem a marca das unhas”. Então, diante de uma pegada de bicho de porte médio a grande no barro, a primeira pergunta é simples: tem risco de unha na frente dos dedos? Se tem, você está no time dos canídeos; se não, provavelmente é felino. O guia de pegadas do IPAM é explícito sobre o caso mais escorregadio — a do lobo-guará “pode ser facilmente confundida com o rastro de uma onça-parda, porém o da onça não apresenta as marcas das unhas”.
Resolvido canídeo x felino, o tamanho separa os canídeos entre si. Pelo guia do IPAM:
- Cachorro-do-mato (lobinho): quatro dedos levemente afastados, com marcas de unha bem definidas, medindo 4,4 a 5,5 cm de comprimento por 3,8 a 4,6 cm de largura. A pegada é “levemente afunilada” na almofada e nos dedos em direção às unhas — e é justamente esse afunilamento que “a diferencia da pegada de um cachorro doméstico”.
- Lobo-guará: também quatro dedos com marcas de unha, mas bem maior — 7 a 9 cm de comprimento por 5,5 a 7 cm de largura, a maior entre os canídeos brasileiros.
- Cachorro-vinagre: intermediária, 4 a 6 cm, dedos bem abertos, às vezes com um quinto dígito interno.
Uma ressalva honesta: distinguir a pegada de um cachorro-do-mato da de um cão doméstico de porte parecido pela impressão isolada é difícil, e nenhuma fonte promete um método infalível. O afunilamento dos dedos rumo às unhas é a melhor pista de campo, mas a leitura mais segura vem de somar a pegada ao resto: o animal na foto, o horário, o contexto. Como sublinha o guia de convivência do CENAP/ICMBio, quando não se vê o animal “a melhor forma de identificação é por meio dos rastros deixados pelo predador” — mas rastro se lê junto com tudo o mais, não isolado. Vale lembrar ainda que a qualidade da pegada depende do terreno: solos argilosos e a estação das chuvas “marcam” muito melhor do que chão seco e duro.
Na pegada, a unha decide: canídeo deixa risco de garra, felino não. É o teste mais confiável no barro.
O cão doméstico na câmera: a confusão que vira problema de conservação

Aqui a identificação deixa de ser um quebra-cabeça divertido e passa a ter peso. O animal que mais se confunde com os canídeos silvestres na câmera não é outro bicho do mato — é o cão doméstico ou feral, e a sobreposição é literal.
Ela aparece nos números. Num levantamento por armadilhas fotográficas na Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica, no Rio de Janeiro, o cão doméstico foi a terceira espécie mais registrada — 174 registros, 0,065 por armadilha-dia —, atrás só do gambá-de-orelha-branca e da paca, e circulando nas mesmas estações de câmera que o cachorro-do-mato. Ou seja, no mesmo remanescente florestal, na mesma trilha, cães soltos e canídeos nativos passam diante da mesma lente. Não é hipótese: é o retrato de campo do problema.
E por que isso é grave, além de bagunçar a sua planilha? Por três motivos que a literatura documenta bem.
O primeiro é doença. Cães livres funcionam como ponte sanitária entre o mundo doméstico e a fauna. No Parque Nacional das Emas, no Cerrado, um estudo testou 169 carnívoros silvestres e 35 cães domésticos de propriedades vizinhas: 71,4% dos cães estavam expostos ao vírus da cinomose (CDV), contra 10,6% dos silvestres (entre eles lobos-guarás, cachorros-do-mato e jaguatiricas); para a parvovirose, 57,1% dos cães e 56,8% dos silvestres. O recado dos autores é direto — o crescimento humano no entorno de áreas protegidas “increases the contact between wild and domestic animals, promoting disease transmission”. A cinomose e a parvovirose são justamente doenças de cão que respingam nos canídeos nativos. E há um exemplo dramático de doença emergente: a sarna sarcóptica (ácaro Sarcoptes scabiei) no lobo-guará, mapeada em 52 casos no sudeste do Brasil — 34 em São Paulo, 17 em Minas Gerais, 1 no Rio — num espalhamento “rápido e amplo”; os pesquisadores classificam as doenças invasoras de animais domésticos como “an emerging threat to the maned wolf”. O cachorro-do-mato, generalista e sinantrópico, é hospedeiro de vários parasitas — inclusive Toxoplasma gondii, detectado num indivíduo atropelado no Rio Grande do Sul, com implicação de saúde pública.
O segundo é hibridação. Cães soltos podem cruzar com canídeos silvestres e diluir sua integridade genética. Em 2021, na cidade de Vacaria (RS), apareceu uma fêmea com fenótipo intermediário entre cão doméstico e graxaim-do-campo; análises genéticas e citogenéticas concluíram tratar-se de um híbrido de cão doméstico com graxaim-do-campo — o primeiro caso documentado dessa hibridação. Cruzamentos entre gêneros diferentes são raros, e por isso mesmo o caso acendeu um alerta. Uma revisão recente sobre cães de vida livre e conservação coloca a hibridação entre as ameaças de fundo: a mistura genética “can erode local adaptations, reduce genetic purity, and undermine conservation efforts for wild canid populations”.
O terceiro é o pano de fundo geral: cães de vida livre são predadores e competidores generalistas que causam perda de biodiversidade “through predation, disease transmission, competition, and behavioral disruption of native species”. Some-se a isso o fato de que os canídeos silvestres já são erroneamente perseguidos como predadores de galinha e cordeiro — tanto o cachorro-do-mato quanto o graxaim-do-campo “são erroneamente considerados predadores de animais domésticos e devido a isso são caçados”. Confundir na câmera, portanto, tem consequência dupla: subestima o problema dos cães e, do outro lado, pode alimentar a perseguição ao bicho errado.
Vale registrar um detalhe que o guia do CENAP/ICMBio não deixa passar: o próprio cão doméstico é tratado como predador naquele material (“Cão Doméstico como Predador”), porque cães mantidos para proteger a criação podem eles mesmos atacar fauna e rebanho. Na câmera, um cão feral solitário caçando à noite é fácil de tomar por canídeo silvestre — e é aí que a leitura cuidadosa dos traços paga.
Contar um cão feral como bicho do mato não é erro de planilha: mascara doença, hibridação e perseguição ao animal errado.
Comportamento e horário: pistas que a foto sozinha não dá
Muita identificação se decide não pelo pelo, mas pelo jeito e pela hora — informação que a câmera registra de graça em cada carimbo de data.
Comece pelo horário, porque ele separa espécies parecidas. O cachorro-do-mato é crepuscular-noturno e costuma circular em pares, sem caçar em grupo. O graxaim-do-campo, seu sósia sulino, é diurno — então uma imagem de um canídeo médio à luz do dia, no Pampa, pende fortemente para o graxaim. O lobo-guará é noturno, com picos no crepúsculo e na alvorada, mas com uma ressalva importante: seu horário é modulado pela temperatura. A IUCN descreve a atividade da espécie no Brasil como catemeral — “active at any hour, day or night” —, mais diurna na estação seca, quando as noites caem a 5 °C e o dia é mais quente, e mais noturna na estação chuvosa. O Onçafari observa o mesmo: em dias frios e nublados o lobo estende o deslocamento e a caça pelo dia; no calor, passa horas deitado no mesmo lugar. A lição vale para qualquer latitude: leia o horário como condição (temperatura, luz), não como uma regra fixa de calendário — o inverno seco do Cerrado e o do Pampa não caem no mesmo mês, e a estação inverte entre os hemisférios do mundo lusófono.
Depois, a estrutura social. Nenhum dos três forma matilha. O lobo-guará é enfático nesse ponto: “solitários, não formam grupos como outras espécies de canídeos”, e caça sozinho. Então um bando de vários canídeos de porte grande andando junto não é lobo-guará — é bem mais provável que sejam cães ferais em grupo, uma pista adicional de que você está diante de doméstico, não de silvestre. Cachorro-do-mato aparece sozinho ou aos pares; graxaim, em geral solitário.
Por fim, uma assinatura de campo útil para o lobo-guará: ele marca o território de forma bem visível, defecando e urinando sobre estradas e cupinzeiros, e a urina tem cheiro forte e duradouro. Isso significa que os vestígios (fezes e pegadas) aparecem com facilidade nas áreas onde ele ocorre — e ajuda a escolher onde apontar a câmera.

Biomas: onde cada canídeo entra em cena
Saber qual canídeo esperar antes mesmo de olhar a foto encurta o caminho, porque a geografia já elimina metade das opções. Cada bioma neotropical tem seu elenco.
- Cerrado. O território clássico do lobo-guará — símbolo do bioma —, que aqui divide o cenário com o cachorro-do-mato e com a endêmica raposa-do-campo. É também o bioma cuja conversão em lavoura e pasto mais ameaça o lobo-guará.
- Pampa. Reino do graxaim-do-campo e um dos redutos do lobo-guará, ainda que em densidades muito baixas — no Pampa estima-se população de lobo-guará inferior a 50 indivíduos. No Rio Grande do Sul, o lobo-guará é considerado Criticamente em Perigo.
- Pantanal. O lobo-guará ocorre, porém é raro; foi lá que se mediu uma das primeiras densidades por câmera da espécie.
- Mata Atlântica. Cachorro-do-mato é presença regular — e é onde a co-ocorrência com cães domésticos mais salta nas câmeras. O lobo-guará aparece, mas raramente.
- Caatinga. Domínio semiárido nas transições com o Cerrado, onde câmeras já flagraram a raposa-do-campo em ambiente xérico.
- Amazônia. O “fora da curva”: some o cachorro-do-mato comum e entram os dois canídeos amazônicos, o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas e o cachorro-vinagre.
Nomear o bioma não é enfeite: é um filtro de identificação. Uma câmera no Pampa não vai registrar canídeo amazônico; uma na Amazônia não vai flagrar graxaim-do-campo. Deixe a geografia trabalhar a seu favor antes de apostar na espécie.

A câmera de fauna: por que é a ferramenta certa para canídeos
Todos esses bichos têm algo em comum que atrapalha a observação direta: são esquivos, muitos são noturnos, ocupam áreas enormes e vivem em baixas densidades. É o cenário em que o armadilhamento fotográfico brilha — e rende muito mais do que “tem canídeo aqui”.
O caso do lobo-guará é emblemático. O primeiro estudo publicado de densidade da espécie foi feito por câmera, e foi também “the first test of individual identification from camera-trap photographs” — mostrando que dá para reconhecer indivíduos nas fotos e estimar densidade por captura-recaptura: 3,64 ± 0,77 indivíduos por 100 km² no Cerrado e 1,56 ± 0,77 no Pantanal. Nada disso exigiu capturar um animal sequer. Do mesmo modo, a câmera virou peça de vigilância sanitária: boa parte dos 52 casos de sarna sarcóptica em lobo-guará foi identificada por armadilhamento fotográfico, ao lado de revisão de redes sociais e coleta de amostras. Uma câmera que flagra um lobo-guará pelado de sarna, ou muito menos visitas do que o normal num ponto antes movimentado, é um sinal de alerta precoce.
Na prática, como montar? O protocolo mínimo do MonitoraBioSP, referência estadual em São Paulo, dá parâmetros concretos: fixe a câmera entre 30 e 50 cm acima do solo — na “altura do joelho”, de modo que o sensor pegue tanto os mamíferos menores quanto os maiores, e mantenha os pontos amostrais com no mínimo 2 km de distância entre si dentro da grade, para não recontar o mesmo animal e cobrir bem a área. Aponte a lente para os corredores naturais e para as marcas do próprio animal — no caso do lobo-guará, as estradas e cupinzeiros que ele usa para marcar território são pontos privilegiados, já que ali seus vestígios se concentram. E lembre que os grandes esforços que geram dados sólidos são justamente os de larga escala: foram mais de 40 mil armadilhas-dia para caracterizar a raridade dos canídeos amazônicos.
O gargalo, aí, deixa de ser o campo e passa a ser a triagem: milhares de fotos noturnas, muitas vazias, e a tarefa nada trivial de separar um cachorro-do-mato de um cão feral, quadro a quadro, no escuro.

Conservação: por que a identificação certa importa
Ler os canídeos com precisão não é só higiene de dados — alimenta decisões de conservação que dependem de saber, de fato, quem está na paisagem.
O lobo-guará é o caso mais delicado. Globalmente, a IUCN o classifica como Quase Ameaçado, com uma população estimada em 17 mil indivíduos maduros (avaliação de 2015). Mas a leitura regional é mais dura: a avaliação do ICMBio projeta, só pela perda de hábitat no Cerrado, um declínio de pelo menos 29% em 21 anos (3 gerações), o que qualifica a espécie como Vulnerável (VU) naquele bioma — e isso sem contar as perdas não quantificadas por atropelamento, doença e retaliação. No Rio Grande do Sul, é Criticamente em Perigo. Some as ameaças que aparecem em toda parte — o atropelamento de carnívoros de médio porte em rodovias de alto tráfego, documentado justamente para o lobo-guará e o cachorro-do-mato na Mata Atlântica — e fica claro por que cada registro confiável conta.
O cachorro-do-mato está em situação bem mais tranquila: Menos Preocupante e com população estável, tanto para a IUCN quanto para as listas nacionais. Ainda assim, sofre com atropelamento e com a perseguição por suposta predação de aves de criação. O graxaim-do-campo também é Menos Preocupante. A raposa-do-campo, endêmica, é tida como relativamente comum pela IUCN, embora com estimativas populacionais imprecisas e sinais locais de declínio.
O fio que costura tudo isso é o dos cães de vida livre, a ameaça que a câmera flagra melhor do que qualquer método. Doença que respinga dos cães nos nativos, hibridação que dilui a genética silvestre, predação e competição diretas — todos esses problemas começam com cães e canídeos ocupando o mesmo espaço, o mesmo que a sua câmera registra lado a lado. Uma rede de câmeras bem lida não só diz quantos canídeos você tem: mostra quantos cães soltos circulam, se há bicho doente passando, e se as visitas caíram num ponto antes movimentado. Saber distinguir um cachorro-do-mato de um cão feral, em outras palavras, é o primeiro passo de qualquer monitoramento sério de canídeos neotropicais — e é uma habilidade que se aprende olhando pernas, orelhas, horário e unhas, um quadro de cada vez.
Perguntas frequentes
Como diferencio o cachorro-do-mato do graxaim-do-campo na câmera?
Os dois são parecidos, mas o graxaim-do-campo é maior (pouco mais de um metro, contra 57–100 cm do cachorro-do-mato) e, sobretudo, é diurno, enquanto o cachorro-do-mato é crepuscular-noturno. No sul do Brasil, um canídeo médio circulando à luz do dia pende fortemente para o graxaim; à noite, para o cachorro-do-mato.
O lobo-guará é um lobo de verdade?
Não. Apesar do nome e do porte, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) não pertence ao gênero dos lobos e cães (Canis) nem ao das raposas (Vulpes): é a única espécie viva do seu gênero, uma linhagem geneticamente distinta. “Parece raposa, se chama lobo e não é próximo de nenhum dos dois”.
Como sei se a pegada é de canídeo ou de felino?
Pela unha. Canídeos (cachorro-do-mato, lobo-guará, cachorro-vinagre e também o cão doméstico) andam com as garras expostas e deixam marcas de unha à frente dos dedos. Onças e jaguatiricas recolhem as garras e não deixam essa marca — por isso a pegada do lobo-guará, que confunde com a da onça-parda, se separa dela justamente pela presença das unhas.
Por que confundir esses canídeos com cachorro doméstico é um problema?
Porque cães soltos aparecem na mesma câmera que os silvestres — num remanescente de Mata Atlântica o cão foi a 3ª espécie mais registrada — e trazem doenças (cinomose, parvovirose, sarna), risco de hibridação (já houve híbrido documentado de cão com graxaim-do-campo) e predação. Contar errado mascara esse impacto e pode alimentar a perseguição ao bicho errado.
Que canídeos posso esperar na Amazônia?
Só dois, e nenhum é o cachorro-do-mato comum: o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis), endêmico da região, e o cachorro-vinagre (Speothos venaticus), ambos raros e esquivos. O Cerdocyon thous ocupa quase todos os biomas brasileiros, menos boa parte da Amazônia.
A que altura instalo a câmera para registrar canídeos?
O protocolo estadual do MonitoraBioSP recomenda fixá-la entre 30 e 50 cm do solo (altura do joelho), para o sensor pegar mamíferos de portes variados, com os pontos a pelo menos 2 km de distância entre si. Aponte para corredores naturais e, no caso do lobo-guará, para estradas e cupinzeiros que ele usa para marcar território.