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Jaguarundi, gato-do-mato ou gato doméstico: identificar os pequenos felinos neotropicais na câmera de fauna

Um jaguarundi de pelagem lisa e cor uniforme cruza uma trilha de floresta neotropical ao meio-dia, capturado por uma câmera de fauna

Um vulto passa rasteiro pela armadilha fotográfica, ao meio-dia, no calor. Corpo comprido, patas curtas, pelagem lisa e sem pinta nenhuma, uma cauda quase absurda de longa arrastando atrás. Você olha e pensa: gato? furão? lontra que se perdeu do rio? É um jaguarundi — e o fato de você ter hesitado é, na verdade, o resumo deste artigo. Os pequenos felinos do Neotrópico são um pesadelo de identificação, e a honestidade manda começar por aí: mesmo os especialistas erram, e o guia oficial de identificação de felinos do Brasil, escrito por pesquisadores da Panthera, do Instituto Pró-Carnívoros e do ICMBio, avisa em letras claras que "é muito provável que seja necessário recorrer a especialistas para uma correta identificação".

Guarde essa frase. Não porque a câmera seja inútil — pelo contrário, ela é a melhor ferramenta que existe para estes bichos —, mas porque a foto de um gato pequeno no mato quase nunca fecha a espécie sozinha. O que a câmera dá é uma boa hipótese, e este texto é sobre como fazer a melhor hipótese possível.

O elenco é maior do que a maioria imagina. Debaixo do guarda-chuva "gato-do-mato" cabe o jaguarundi ou gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), sem pinta e diurno; o gato-maracajá (Leopardus wiedii), de cauda comprida e olhos enormes; o gato-macambira e o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus e L. guttulus), rosetados e do tamanho de um gato de casa; o gato-palheiro (Leopardus colocola e afins), quase sem rosetas; e — o distrator que estraga tudo — o gato doméstico (Felis catus) vivendo assilvestrado longe das casas. Some a jaguatirica jovem por cima, e você tem um dos problemas de identificação mais bonitos e mais frustrantes da fauna sul-americana.

A resposta curta, se foi por ela que você veio, cabe em duas perguntas em cadeia. Tem pinta? Se não tem — pelagem uniforme, corpo de furão, cauda longa, mexendo-se de dia — é jaguarundi, e o assunto quase acaba aí. Se tem rosetas ou manchas, a segunda pergunta é de que tamanho? — porque o porte relativo ao gato doméstico separa a maioria das espécies antes de qualquer detalhe fino. Só depois disso é que a cauda, os olhos, o sentido do pelo da nuca e o horário entram para desempatar. E, no limite dos limites, entra o que a foto nunca dá: a genética.

A câmera de fauna não fecha a espécie de um gato-do-mato — ela levanta a melhor hipótese, e o especialista (ou o ADN) confirma.

Primeiro corte: pinta ou não pinta, e de que tamanho

Antes de qualquer minúcia, faça a triagem grossa — ela resolve a maioria dos casos e evita que você se perca em detalhes que a foto muitas vezes nem mostra. O elenco divide-se em dois blocos que não se confundem entre si: o jaguarundi, que é liso, e todo o resto, que é pintado ou rosetado. Essa é a primeira faca, e é a mais fiável.

Dentro do bloco pintado, a segunda faca é o tamanho relativo ao gato doméstico — e aqui o guia oficial brasileiro faz um favor enorme ao camera-trapper. A tabela de diferenças do guia da Panthera/ICMBio classifica cada espécie exatamente por esse critério: a jaguatirica é "mediano, muito maior que gato doméstico"; o gato-maracajá, o gato-do-mato-grande e o gato-palheiro ficam "≈ gato doméstico"; e o gato-macambira e o gato-do-mato-pequeno são "menores que gato doméstico". Ou seja: se o bicho é claramente muito maior que um gato de casa, você está diante de uma jaguatirica (assunto de outro guia, o dos grandes felinos), e não de um gato-do-mato pequeno. Se é do tamanho de um gato caseiro ou menor, o campo se estreita para as espécies deste texto.

Um estudo de fototrampagem na Amazônia boliviana coloca a mesma regra em palavras que servem de mnemônica: os felinos rosetados "podem ser distinguidos pelo tamanho geral e pelo comprimento relativo da cauda e dos membros. As jaguatiricas são maiores, cerca de duas vezes o tamanho das outras, com uma cauda curta e fina em relação ao corpo. Os maracajás são mais esguios, com cabeça mais arredondada, olhos maiores, membros mais longos e uma cauda de dois terços a três quartos do comprimento do corpo. Os gatos-do-mato-pequenos têm o tamanho de um gato doméstico pequeno, cabeça bem arredondada, orelhas curtas e membros e cauda mais curtos que os do maracajá". Decore essa hierarquia — porte, cauda, membros — e você já acertou o gênero antes de olhar uma única roseta.

O problema, claro, é a escala. Uma câmera raramente diz de imediato se aquele gato tem 40 cm ou 50 cm de altura no ombro. Por isso a triagem de porte funciona melhor quando há uma referência no quadro (um tronco, uma pedra, marcas no chão) ou quando você conhece as medidas médias das espécies da sua região. É também por isso que a Amazônia boliviana registrou 478 jaguatiricas, 47 maracajás e apenas 19 jaguarundis no mesmo esforço — a jaguatirica é abundante e fácil, e os pequenos são raros e esquivos. Comece pelo que a imagem realmente mostra: liso ou pintado, grande ou pequeno. O resto é refinamento.

Duas facas resolvem quase tudo: pinta ou não pinta, e maior ou menor que um gato de casa. Só depois vêm a cauda e os olhos.

O jaguarundi: o felino que não parece um felino

Se há um bicho fácil neste elenco difícil, é o jaguarundi — não porque tenha uma marca óbvia, mas porque não tem marca nenhuma, e isso, no meio de tantos gatos pintados, é a marca. O IUCN Cat Specialist Group descreve-o com uma precisão que vale imprimir: "cabeça pequena, fina e alongada, olhos pequenos e próximos, orelhas arredondadas e afastadas, corpo baixo e esguio, pernas curtas e uma cauda muito longa, o que lhe dá uma aparência única; às vezes é chamado de 'gato-lontra'". A jornalista da Mongabay, ao entrevistar o pesquisador Arturo Caso, resumiu ainda melhor: "com sua cabeça pequena, pupilas redondas, orelhas redondas minúsculas, corpo esguio e uma cauda audaciosamente longa, ele nem parece um gato" — e Caso, que fez um dos raríssimos estudos de rádio-colar com a espécie, acrescenta, sem cerimônia: "Alguns dizem que parece mais uma lontra. É — como posso dizer — não muito bonito!".

Essa aparência de mustelídeo tem explicação genética: o jaguarundi tem 38 cromossomos, contra 36 dos outros pequenos felinos sul-americanos, e é parente próximo da onça-parda e do guepardo, não das jaguatiricas e maracajás. Traduzindo para o campo, há três sinais que fecham a identificação:

Sobre a cor, largue a ideia de que ela ajuda a definir a espécie: não ajuda. O jaguarundi vem em duas a três "fases" — preto-acastanhada, cinza e um vermelho-tijolo conhecido como eyra — e as três podem nascer na mesma ninhada. O tom avermelhado é mais comum em áreas abertas e secas (na Caatinga é o morfo dominante), e o escuro mais associado a florestas úmidas, mas todas as fases ocorrem em todos os ambientes, e não há uma fronteira geográfica limpa entre elas. O biólogo Tadeu de Oliveira cunhou o apelido definitivo: "o gato multicolorido da América tropical". No Uruguai, câmeras registraram tanto o morfo cinza quanto o avermelhado na mesma região. Portanto: se você está tentando decidir a espécie pela cor de um jaguarundi, está fazendo a pergunta errada — a cor varia, a forma não.

Um cuidado final. Aquelas manchas que às vezes aparecem na face ou nas patas de um jaguarundi geralmente não são um padrão — "podem ser descoloração natural do pelo, mas mais comumente são cicatrizes", e como marcas únicas são raras, é "muito difícil identificar indivíduos... a partir de registros de câmera". Isso importa para quem cataloga: com jaguatiricas você consegue recontar indivíduos pelo padrão de rosetas; com jaguarundis, não, porque não há padrão para comparar.

No jaguarundi, a cor varia — preto, cinza, vermelho, tudo na mesma ninhada — mas a forma de furão e a cauda longa não mudam. Identifique pela forma.

O trio rosetado: maracajá, macambira e gato-do-mato-pequeno

Um gato-mourisco de pelagem lisa, corpo baixo e alongado, patas curtas e cauda muito longa, cruzando o chão da floresta de dia

Aqui mora a dificuldade de verdade. Passado o jaguarundi, sobram os gatos pintados de porte pequeno — e eles se parecem uns com os outros e com uma jaguatirica encolhida. A boa notícia é que, depois do porte, dois traços fazem a maior parte do trabalho: a cauda e os olhos.

O gato-maracajá (Leopardus wiedii) é o especialista arborícola, e o corpo denuncia isso. Ele é "semelhante à jaguatirica, porém menor e mais esguio", com "a articulação do tornozelo flexível e a cauda maior... olhos relativamente maiores e mais separados do que na jaguatirica". Dois sinais o fecham. Primeiro, a cauda muito longa — "70% da cabeça e corpo", que "atinge o solo", e, na descrição popular corroborada pelas fontes científicas, "mais longa do que seus membros posteriores". Segundo, os olhos grandes e protuberantes num focinho saliente. O maracajá é o único felino que consegue girar os tornozelos traseiros em até 180°, descendo de árvores de cabeça para baixo como um esquilo — daí passar a maior parte do tempo no alto. Medidas do banco de dados da Universidade de Michigan: cabeça+corpo de 463 a 790 mm, cauda de 331 a 510 mm, 2,6 a 3,9 kg. Se a foto mostra um gato pintado esguio, de olhos enormes e uma cauda que parece grande demais para o corpo, pense maracajá.

O gato-macambira (Leopardus tigrinus) é o menor felino do Brasil — "porte e proporções corporais semelhantes ao gato doméstico", comprimento total médio de 77 cm e peso médio de 2,4 kg. Ele traz um traço que é ouro para a câmera, porque é contável: a cauda tem de 7 a 13 anéis escuros e termina em ponta preta, e a parte de trás das orelhas é preta com uma mancha branca central. As rosetas, de orla muito escura e interior castanho, alinham-se pelo dorso. Onde o maracajá tem olhos grandes e cauda longa, o macambira é compacto, com a cauda anelada e a mancha branca na orelha.

E aqui entra a armadilha taxonômica que confunde até quem lê a literatura. O "gato-do-mato-pequeno" foi, até há pouco, uma coisa só; hoje são duas espécies, separadas por estudos genéticos e morfológicos: o Leopardus tigrinus (o gato-macambira, do norte e nordeste) e o Leopardus guttulus (o gato-do-mato-do-sul, do sul, sudeste e centro-oeste). A Panthera data a divergência em mais de 100 mil anos e nota que uma terceira espécie, o L. pardinoides, já foi proposta mas ainda não confirmada pela IUCN. Para o campo, o problema é que os dois são quase gêmeos. O próprio Instituto Pró-Carnívoros admite que, "embora diferenças morfológicas... tenham sido descritas, há variações consideráveis dentro de cada espécie que podem tornar uma identificação precisa difícil".

Ainda assim, alguns detalhes ajudam a inclinar a balança entre os dois, se você souber a região:

TraçoGato-macambira (L. tigrinus, N/NE)Gato-do-mato-pequeno (L. guttulus, S/SE/CO)
PorteMais esguio, cauda longaMenos esguio, mais compacto
CaudaLonga, anéis grossos, ponta pretaMais curta e grossa, bem anelada
Base da pelagemAmareladaMais amarelada ainda / castanho-amarelado, tons mais escuros que no norte
Melanismo (indivíduo preto)Muito raroComum
Pelo da nucaVoltado para trásTodo voltado para trás, inclusive na cabeça

Os dados vêm do guia oficial e das fichas do Pró-Carnívoros e da UFRGS: o guttulus tem "a base de sua pelagem mais amarelada quando comparada em relação ao L. geoffroyi", é "menos esguio e mais compacto que o gato-macambira", tem "cauda mais curta e grossa" e, crucialmente, melanismo comum — indivíduos completamente pretos são frequentes no guttulus e raros no tigrinus. Isso dá uma exclusão útil: um gato-do-mato preto no sul do Brasil é, com boa probabilidade, um guttulus melânico; no norte, o melanismo é raro. Mas repare no tamanho da ressalva — sem saber a região e sem uma foto muito boa, separar tigrinus de guttulus é tarefa para especialista, exatamente como o guia avisa.

Um gato-maracajá pequeno e arborícola sobre um galho, com olhos bem grandes e saltados e uma cauda longuíssima, imitando o desenho da jaguatirica

A jaguatirica jovem: a confusão que engana o olho treinado

Há um erro específico que merece parágrafo próprio, porque pega gente experiente: confundir uma jaguatirica jovem com um maracajá ou um gato-do-mato adulto. A jaguatirica (Leopardus pardalis) é o terceiro maior felino das Américas, com 8 a 15,5 kg — não há como confundir um adulto com um gato pequeno. Mas um filhote ou subadulto tem o porte reduzido, e a Panthera é franca sobre o resultado: "os cientistas admitem que dizer a diferença entre filhotes de jaguatirica, maracajá e gato-do-mato é excepcionalmente difícil".

Como não se deixar enganar? Volte aos traços que não mudam com a idade. A jaguatirica tem os pelos da nuca voltados para frente (assim como o maracajá), enquanto tigrinus, guttulus e geoffroyi têm o pelo da nuca voltado para trás — um critério que o guia oficial usa justamente para separar peles. As rosetas da jaguatirica são grandes e "unidas em faixas oblíquas" que descem pelos flancos, com duas linhas pretas longitudinais na testa. E há a cauda: na jaguatirica ela é relativamente curta ("50% da cabeça e corpo", não atinge o solo), o oposto exato da cauda longuíssima do maracajá. Na dúvida entre um maracajá e uma jaguatirica jovem, a cauda longa que arrasta e os olhos protuberantes puxam para o maracajá; a cauda curta, o porte robusto e as faixas oblíquas puxam para a jaguatirica.

O pano de fundo ecológico ajuda a entender por que esses bichos aparecem juntos na mesma câmera. A jaguatirica domina o grupo dos pequenos felinos — é o chamado "efeito pardalis": onde há muita jaguatirica, os menores recuam no espaço ou no tempo, e a densidade de gato-do-mato sobe justamente onde a de jaguatirica cai. Num estudo na Mata Atlântica argentina, a jaguatirica era mais abundante em áreas bem protegidas, enquanto o maracajá e o gato-do-mato-do-sul usavam mais os sítios perturbados. Não é que os pequenos "prefiram" áreas degradadas — é que fogem da concorrente maior. Saber disso não identifica a espécie sozinho, mas ajuda a ler o conjunto de registros de uma área.

A jaguatirica jovem é o sósia mais traiçoeiro do maracajá — use o que não muda com a idade: o sentido do pelo da nuca e o comprimento da cauda.

O gato-palheiro: o rosetado sem rosetas

Um gato-macambira do tamanho de um gato doméstico, com rosetas de orla escura, cauda anelada de ponta preta e mancha branca atrás das orelhas

O gato-palheiro (Leopardus colocola, com os táxons regionais braccatus e munoai) é o intruso deste grupo, e o guia oficial já avisa que ele é "muito semelhante ao gato-doméstico, com quem é comumente confundido". Mas, uma vez que você saiba o que procurar, ele é dos mais fáceis, porque quebra a regra do grupo: quase não tem rosetas. A ficha da UFRGS resume o padrão "mais diferenciado": tonalidade "de acinzentado à avermelhado", sem "formação de pintas", com "pelos mais longos e ásperos em relação aos demais felinos" e "listras pretas nas patas".

Dois traços são diagnósticos. Primeiro, a crista dorsal: uma "faixa de pelo mais comprido e mais escuro nas costas", que se eriça quando o animal se sente ameaçado — nenhum outro candidato tem isso. Segundo, as listras pretas nas patas, que podem formar uma verdadeira "bota preta", descrita pelo guia oficial como "característica diagnóstica desta espécie". Some a cauda curta (50% do corpo), "sem anéis e com a ponta preta", a cabeça larga e as orelhas triangulares, e você tem um perfil que não se confunde com o maracajá (esguio, cauda longa) nem com o macambira (rosetado, cauda anelada). Medidas: 43 a 79 cm, cauda de 22 a 33 cm, 3 a 4 kg.

Uma ressalva de hábitat, porque ela desfaz um atalho perigoso. O gato-palheiro é classicamente um especialista de áreas abertas — Pampa, Cerrado, Pantanal. A tentação é usar o ambiente como filtro: "estou na Mata Atlântica, logo não é palheiro". Não faça isso. Um trabalho no Brazilian Journal of Mammalogy documentou três novos registros de gato-palheiro em São Paulo, em áreas altamente antropizadas de Mata Atlântica, todos animais atropelados, e discute se representam uma expansão de distribuição. A lição é geral e vale para todo este elenco: o hábitat estreita as probabilidades, mas não fecha portas. Identifique pelo animal, não pelo mapa.

O sósia doméstico: quando o gato-do-mato é o gato de alguém

E chegamos ao distrator que ronda todas as câmeras rurais do Neotrópico: o gato doméstico (Felis catus) vivendo à solta. Um gato de casa tigrado, magro, de cauda comprida, fotografado numa trilha a quilômetros da fazenda mais próxima, é sedutor — dá vontade de que seja um gato-do-mato raro. Mas a semelhança é real, e o gato doméstico à solta ocupa um amplo território de vida, movido pela busca de parceiros, e preda a fauna nativa por onde passa.

Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas, e a distinção é o coração deste tópico. Uma revisão de 2025 sobre gatos de vida livre no Brasil, que sintetizou 34 estudos, é categórica num ponto crucial: "no Brasil, no entanto, não há evidência científica de hibridação entre gato doméstico e espécies selvagens". Isso é diferente do que acontece na Escócia, onde a hibridação com o gato doméstico é "uma ameaça-chave" ao gato-bravo europeu. No Neotrópico, o gato de casa e os felinos selvagens não se cruzam — o que existe é confusão de identificação, não mistura genética. Então, quando você olha um gato tigrado na câmera e desconfia que "pode ser meio gato-do-mato", a biologia responde: não existe "meio". Ou é um gato-do-mato, ou é um gato doméstico. A pelagem intermediária que confunde tem outra origem, que veremos na próxima seção — e não é o gato de casa.

Como suspeitar do doméstico, então? Não há um traço único infalível, mas há um conjunto de sinais que puxam para o gato de casa: pelagem que não corresponde a nenhum padrão de roseta conhecido (manchas irregulares, tigrado clássico, ou cores "de gato de casa" como preto sólido, branco, malhado); porte e proporções que batem com um gato caseiro grande; e ausência dos traços diagnósticos das espécies selvagens (a bota do palheiro, os 7–13 anéis do macambira, a cauda longuíssima do maracajá). Como a maioria dos pequenos felinos selvagens tem "o tamanho de um gato doméstico", o porte sozinho não resolve este par — e é honesto dizê-lo. Trate cada gato pequeno rosetado ou tigrado como "possível felino selvagem, a confirmar", exatamente como o guia oficial trata a identificação de todo o grupo.

Por que isso importa para além da curiosidade? Porque o gato doméstico à solta não é neutro. Ele preda aves, mamíferos, répteis e invertebrados nativos, e é o hospedeiro definitivo do Toxoplasma gondii, doença que já foi confirmada em felinos selvagens brasileiros como L. geoffroyi e L. tigrinus. Um estudo de fototrampagem na Caatinga encontrou alta sobreposição temporal entre cães domésticos e os dois felinos selvagens (gato-mourisco e gato-macambira) e nota que, no caso dos gatos domésticos, "a principal ameaça vem na forma de transmissão de doenças, já que eles não são capazes de matar um felino selvagem adulto". Ou seja: identificar corretamente os gatos domésticos numa câmera não é só evitar um erro de registro — é mapear uma pressão real sobre a fauna nativa. As recomendações da literatura são práticas e conhecidas: castrar os gatos que andam no exterior, sobretudo perto de áreas naturais, mantê-los dentro de casa quando possível, e não abandonar gatos no meio rural.

No Brasil não existe "meio gato-do-mato": o gato doméstico e os felinos selvagens não hibridam. Ou é a espécie selvagem, ou é o gato de alguém.

A hibridação de verdade: entre espécies selvagens, e ela confunde

Um gato-palheiro de pelagem acinzentada sem rosetas, com listras pretas nas patas formando uma bota escura e a crista dorsal eriçada

Se o gato doméstico não hibrida com os selvagens, de onde vem aquela pelagem "intermediária" que às vezes desafia toda a identificação? De um fenômeno real, documentado e fascinante — mas **entre espécies selvagens de *Leopardus***, não com o Felis catus. É uma distinção que precisa ficar cristalina, porque as duas coisas se parecem no discurso ("híbrido de gato") mas são biologicamente opostas.

No sul do Brasil, onde as distribuições do gato-do-mato-pequeno (L. tigrinus) e do gato-do-mato-grande (L. geoffroyi) se tocam numa faixa estreita — uma zona de contato de menos de 100 km de largura no Rio Grande do Sul —, essas duas espécies hibridam naturalmente. Um estudo publicado na *Molecular Ecology* identificou "pelo menos 14 indivíduos exibindo sinais de introgressão genômica interespecífica", a maioria vinda dessa zona de contato, e observou animais com "padrões de coloração atípicos, aparentemente 'intermediários' entre as duas espécies". A estrutura genética das populações de L. tigrinus do Brasil mostra "um gradiente de diferenciação a partir do L. geoffroyi correlacionado com a distância da zona de contato". O mesmo trabalho corrobora ainda hibridação entre L. tigrinus e um terceiro parente, o gato-palheiro (L. colocolo) — uma situação incomum em que uma espécie carrega marcas genéticas de duas outras.

Para o camera-trapper, a consequência é direta e um pouco cruel: naquela faixa do sul, um gato-do-mato pode ser geneticamente um híbrido, com uma pelagem que não bate perfeitamente com nenhuma das duas espécies parentais. O L. geoffroyi puro, aliás, é um dos poucos que quebra a regra do porte — é "maior que um gato doméstico, ao contrário do gato-do-mato-pequeno", com cerca de 60 cm de corpo, cauda de 31 cm e peso de 2 a 5 kg (até 7,8 kg), pintas e manchas sólidas em vez de rosetas ocas, e o hábito curioso de se levantar sobre as patas traseiras usando a cauda como apoio. Mas o híbrido fica no meio do caminho, e é aí que a foto se rende.

Guarde as duas ideias lado a lado, porque a confusão entre elas gera desinformação: hibridação com gato doméstico — não existe no Brasil; **hibridação entre espécies selvagens de Leopardus — existe, é documentada, e produz os intermediários que enganam a identificação**. A primeira é um mito de campo; a segunda é uma armadilha real. Um gato de pelagem estranha no sul do Brasil não é "meio doméstico" — é, possivelmente, um híbrido selvagem, e só a genética distingue.

Um gato doméstico tigrado e magro caminhando sozinho por uma trilha rural distante de qualquer casa, o sósia que confunde com um felino selvagem

Onde e a que horas cada um aparece

Saber onde e a que horas esperar cada felino não identifica sozinho — mas estreita o campo de suspeitos e, tão importante quanto, ajuda a montar a câmera no lugar certo. E há um eixo em que essas espécies se organizam com uma clareza surpreendente: o relógio.

A síntese mais limpa vem de um estudo na Mata Atlântica: "a jaguatirica é sobretudo noturna, o gato-mourisco é estritamente diurno, o gato-maracajá é estritamente noturno, e o gato-do-mato-do-sul é catemeral, com a capacidade de ajustar sua atividade à dos competidores". Repare no que isso faz por você. Um felino sem pinta fotografado às duas da tarde é candidato fortíssimo a jaguarundi antes mesmo de você olhar a cauda — porque é praticamente o único do grupo ativo em pleno dia. Um gato pintado registrado só à noite exclui o jaguarundi e aponta para maracajá, jaguatirica ou gato-do-mato. Na Caatinga, a segregação foi medida: o gato-mourisco teve 93,75% dos registros diurnos, sem nenhum depois das 18h, enquanto o gato-macambira foi predominantemente noturno. O gato-do-mato-pequeno, sendo catemeral, é o coringa — pode aparecer de dia ou de noite, e "ajusta seu padrão de atividade na presença de competidores e de humanos", tornando-se mais noturno perto de gente.

O hábitat completa o quadro, sem nunca fechar a identificação sozinho. O maracajá é o mais florestal e arborícola, passando a maior parte do tempo nas árvores. O gato-palheiro é o de áreas abertas — Pampa, Cerrado, Pantanal — embora, como vimos, apareça ocasionalmente na Mata Atlântica. O jaguarundi é o generalista: ocorre "desde o deserto de Monte, mata seca e caatinga espinhosa... até florestas", tanto preservadas quanto perturbadas, e é o pequeno felino de mais ampla distribuição no hemisfério ocidental, segundo apenas à onça-parda em área ocupada entre os felinos americanos. Um modelo recente, construído a partir de dados de câmera de 17 instituições e 13 países, estima uma população global grosseira de 35.000 a 230.000 jaguarundis cobrindo mais de 4,4 milhões de km². E a dieta ecoa a divisão: um estudo de fezes na Mata Atlântica achou o maracajá comendo sobretudo mamíferos (77% das amostras) e o jaguarundi puxando mais para aves (55%) — o maracajá caça mais na copa, o jaguarundi mais no chão.

Comparação lado a lado de três caudas de pequenos felinos neotropicais: a do maracajá, longuíssima e mais longa que as pernas; a do gato-macambira, anelada e de ponta preta; e a do gato-palheiro, curta e sem anéis

Por que essa identificação importa: bichos que quase não se vê

Ler os pequenos felinos na câmera não é um exercício de colecionador — é, muitas vezes, a única janela que a ciência tem para eles. E aqui a câmera de fauna faz algo que nenhum outro método faz.

Comece pela escala do problema. O jaguarundi é "notoriamente difícil de capturar em armadilha", o que inviabiliza estudos de rádio-colar — Caso levou mais de um ano para prender os dois primeiros indivíduos da sua pesquisa no México. E, por não ter marcas, não dá para identificar indivíduos nem estimar densidade com precisão. O resultado é que, apesar de ser relativamente avistado, "permanece entre os felinos selvagens menos estudados do mundo", e o financiamento é escasso: como resume o pesquisador Anthony Giordano, "sejamos claros, você nunca vai convencer ninguém a lhe dar dinheiro para estudar o jaguarundi". A frase que mais se ouve entre camera-trappers é reveladora: "jaguarundis, de todos os carnívoros, são sempre o meu mais baixo, mal consigo alguns registros".

É por isso que a fototrampagem virou o método central para estes bichos. O IUCN Cat Specialist Group é direto: "a armadilhagem fotográfica parece ser o único método eficaz de detecção do jaguarundi até hoje". E a ciência descobriu como espremer valor até das câmeras que "não eram" para eles: o estudo dos 35.000–230.000 indivíduos nasceu de juntar dados de "captura acidental" (o jaguarundi que aparece por acaso na câmera montada para outra espécie) de dezenas de pesquisadores espalhados, modelando o conjunto para prever distribuição e população. É a lógica do "todo mundo põe seus três registros no mesmo balde". Cada foto de um pequeno felino, bem identificada e bem datada, é um tijolo nesse edifício.

A dificuldade de detecção fica gritante quando se olha o extremo da distribuição. No Texas, um levantamento somou 350.366 armadilhas-noite em 685 sítios sem uma única detecção confirmada de jaguarundi, o que levou os autores a concluir que a espécie está provavelmente extinta nos Estados Unidos — o último registro é de 1986. Foi a câmera, pela sua ausência sistemática, que fechou esse diagnóstico. Do outro lado, a mesma ferramenta revela presenças novas: os modelos de fototrampagem detectaram jaguarundis além do limite de distribuição da IUCN, nos contrafortes andinos da Colômbia e da Bolívia.

Há, por fim, a dimensão do conflito rural, e é aqui que a identificação encontra o dia a dia de quem tem terra. Por ser diurno, o jaguarundi entra em rota de colisão com o produtor: ele tem "o hábito de saquear galinheiros", e é "caçado perto de assentamentos e comumente morto por predação de aves domésticas". O mesmo vale para o gato-do-mato-pequeno, "caçado em áreas rurais sob a acusação de predarem galinhas". Somem-se atropelamentos e transmissão de doenças por cães e gatos domésticos, e você tem um retrato de pressão constante sobre bichos que já são raros. O gato-macambira está classificado como Em Perigo no Brasil pelo MMA; o gato-do-mato-pequeno, como Vulnerável. O maracajá é Quase Ameaçado (Near Threatened) na Lista Vermelha global da IUCN, e Vulnerável na avaliação nacional brasileira. O jaguarundi consta como Pouco Preocupante (Least Concern) na Lista Vermelha da IUCN, na avaliação de 2015 — mas os próprios avaliadores anotaram que ele "já poderia ser Quase Ameaçado", faltando dados para estender a classificação, um lembrete de que a categoria reflete tanto a espécie quanto a nossa ignorância sobre ela. O ICMBio o considera Vulnerável no Brasil.

Uma câmera cheia de "felinos não identificados" é ruído. Uma câmera cujas imagens você sabe separar em jaguarundi, provável maracajá, gato-do-mato a confirmar e gato de alguém vira dado — e dado, para bichos que no chão quase nunca se veem, é a diferença entre saber que eles existem e saber como protegê-los. O ICMBio, aliás, mantém um Plano de Ação Nacional para Conservação dos Pequenos Felinos (PAN Pequenos Felinos), hoje no seu segundo ciclo, contemplando o gato-do-mato-pequeno e outros cinco táxons ameaçados — e planos como esse se alimentam exatamente do tipo de registro que uma armadilha fotográfica bem lida produz.

Para felinos que quase não se veem no chão, cada foto bem identificada é dado de conservação — e a câmera é, para o jaguarundi, o único método que funciona.

Perguntas frequentes

Como sei se o felino na câmera é um jaguarundi?

Procure a ausência de pinta somada a três traços: corpo comprido e baixo tipo furão, cauda longa e fina, e atividade de dia. A pelagem é de uma cor só (cinza, marrom ou vermelha, e as três podem ocorrer na mesma população), sem rosetas, e as pupilas são redondas. Se um gato liso mexe-se ao meio-dia, é candidato forte a jaguarundi.

Qual a diferença entre gato-maracajá e gato-do-mato-pequeno?

O maracajá é maior, esguio, com olhos grandes e protuberantes e uma cauda mais longa que as pernas traseiras (o especialista arborícola). O gato-do-mato-pequeno/macambira é o menor felino do Brasil, do tamanho de um gato de casa, com a cauda de 7 a 13 anéis e mancha branca atrás das orelhas. Cauda longuíssima e olhos grandes puxam para o maracajá.

Um gato tigrado no meio do mato pode ser um gato doméstico?

Sim, e com frequência é — o gato de casa vive à solta e percorre um amplo território bem além do quintal. No Brasil, ao contrário da Europa, não há hibridação entre gato doméstico e felinos selvagens: ou é a espécie selvagem, ou é um gato de alguém. Como quase todos os pequenos felinos têm o porte de um gato caseiro, trate cada gato pequeno como "a confirmar" e busque os traços diagnósticos (bota do palheiro, anéis do macambira, cauda longa do maracajá).

Então o que é aquele "gato híbrido" de pelagem estranha?

No sul do Brasil, espécies selvagens de Leopardus hibridam entre si — o gato-do-mato-pequeno (L. tigrinus) e o gato-do-mato-grande (L. geoffroyi) formam híbridos com pelagem "intermediária" na zona de contato do Rio Grande do Sul. Isso é real e documentado, e é diferente da (inexistente) hibridação com o gato doméstico. Um gato de padrão ambíguo no sul pode ser um híbrido selvagem, que só a genética confirma.

O horário ajuda a identificar a espécie?

Bastante, como filtro. Jaguarundi é diurno; jaguatirica e maracajá, noturnos; gato-do-mato-pequeno, catemeral (dia ou noite). Um felino sem pinta ativo de dia é quase certamente jaguarundi; um gato pintado só noturno exclui o jaguarundi. O horário não fecha a espécie sozinho, mas estreita muito o campo.

Por que é tão difícil fotografar e identificar esses gatos?

Porque são naturalmente raros e esquivos — em levantamentos, jaguarundi e gato-do-mato aparecem com pouquíssimos registros (num estudo na Bolívia, 19 e 5, contra 478 jaguatiricas). O jaguarundi, sem marcas, nem permite identificar indivíduos, e é difícil de capturar em armadilha. Por isso a fototrampagem, muitas vezes juntando "capturas acidentais" de muitos pesquisadores, virou o método central para estudá-los.