O gato-bravo é, talvez, o animal mais difícil de identificar com honestidade numa câmera de fauna em toda a Península Ibérica — e o motivo é humilhante para quem gosta de certezas. Não é que ele seja raro (embora seja). É que, na foto, ele se parece demais com um bicho que anda por todo lado: o gato de alguém. O biólogo Pedro Ribeiro, da Rewilding Portugal, descreveu bem o momento em que uma armadilha fotográfica no Grande Vale do Côa registrou aquilo que seria o primeiro gato-bravo confirmado na região em mais de 30 anos: “Quando me deparei com a primeira foto deste gato quase saltei da cadeira!” E, ainda assim, ele não podia ter certeza — porque, como o próprio admite, “é muito difícil distinguir esta espécie de um gato doméstico com fenótipo selvagem”.
Guarde essa frase, porque ela é a espinha dorsal deste artigo. Na Ibéria há dois felinos selvagens nativos, e eles não poderiam ser mais diferentes de identificar. Um — o lince-ibérico (Lynx pardinus) — é praticamente inconfundível: barbas na face, pincéis nas orelhas, cauda curtíssima, corpo alto e manchado. O outro — o gato-bravo (Felis silvestris silvestris) — é o oposto: um sósia listrado do gato doméstico, cuja separação segura, no limite, não se resolve na imagem, e sim no laboratório de genética. E, entre os dois, circula o distrator que confunde tudo: o gato assilvestrado — o gato doméstico (Felis catus) a viver longe das casas — e os seus híbridos com o gato-bravo.
A resposta curta, se foi por ela que você veio: comece pela pergunta óbvia. É um lince? Se tem barbas, pincéis auriculares e cauda de coto com ponta preta, sim, e o assunto acaba aí. Se é um felino pequeno, do tamanho de um gato caseiro, a pergunta muda para gato-bravo ou gato de alguém? — e aí você olha a cauda grossa com três a cinco anéis pretos largos terminando numa ponta romba e negra, a linha escura ao longo do dorso e a ausência total de pintas (só listras). Mas trate essa segunda identificação como uma hipótese, não como um veredito: o próprio corpo deste artigo vai explicar por que, para o gato-bravo, a câmera levanta a suspeita e o ADN a confirma.
Na Ibéria, o lince você reconhece de longe; o gato-bravo, muitas vezes, só o ADN confirma.
Primeiro corte: é um lince ou é um gato?
Antes de qualquer detalhe fino, faça a triagem grossa, porque ela resolve a esmagadora maioria dos casos. Os dois felinos selvagens ibéricos jogam em ligas visuais opostas. O lince-ibérico é um dos animais mais reconhecíveis da fauna europeia; o gato-bravo é um dos mais traiçoeiros. Confundir um com o outro é raro — o erro real quase sempre é entre gato-bravo e gato doméstico, e é para lá que este artigo caminha. Mas convém saber por que o lince é fácil.
O lince-ibérico é endémico da Península Ibérica, o único grande felino que a Europa tem só para si, e traz um conjunto de traços que nenhum gato possui. O grupo de especialistas em felinos da UICN (o IUCN Cat Specialist Group) descreve-o com precisão: cabeça pequena, corpo curto e pernas longas, uma cauda curta de ponta preta e, nas orelhas, os característicos tufos de pelo negro — os pincéis. A pelagem varia de amarelo a cinzento, avermelhado ou castanho, com manchas castanhas ou pretas, e a face exibe uma gola facial conspícua — as “barbas” — mais marcada nos adultos. A ficha do ICNF resume o cartão de identidade em três palavras que valem a pena decorar: “cauda pequena, pincéis nas pontas das orelhas e barbas”. A Universidade de Évora acrescenta o detalhe do rosto — “os tufos de pelo que formam umas barbas brancas e negras pontiagudas, assim como as orelhas triangulares na ponta das quais sobressai um tufo afilado de pelos negros”.
E o porte fecha a distinção. O lince-ibérico é um felino de tamanho médio, muito maior que qualquer gato: o macho pesa em média cerca de 12 kg e a fêmea cerca de 9 kg, com os machos maiores que as fêmeas. A revista Wilder sintetiza o retrato numa frase que serve de mnemónica de campo: “olhos cor de mel, é acastanhado com riscas pretas, tem barbas negras e brancas, cauda curta e orelhas com pequenos tufos escuros nas pontas, chamados ‘pincéis’”. Na câmera, mesmo no infravermelho, essa silhueta alta de pernas longas com a cauda de coto costuma sobreviver. Se você vê barbas e pincéis, não precisa de mais nada.
Um detalhe de padrão que ajuda quem for catalogar: o desenho das manchas do lince não é uniforme por toda a distribuição. Em Doñana, no sul de Espanha, dominou desde os anos 1960 um padrão de manchas e riscas escuras; na Serra Morena ocorrem naturalmente vários tipos de moteado, de pintas pequenas e pouco distintas a grandes manchas escuras. Isso importa por dois motivos: primeiro, porque um lince “pouco pintado” continua a ser um lince — não deixe o moteado variável abrir dúvida sobre a espécie; segundo, porque é justamente esse padrão individual que permite reconhecer cada animal, um ponto ao qual voltaremos.
Barbas, pincéis e cauda de coto: se o felino tem os três, a identificação do lince acabou antes de começar.
O gato-bravo e o seu sósia: a cauda decide (quase tudo)
Passada a triagem, chega o problema de verdade. O gato-bravo europeu — a subespécie Felis silvestris silvestris, o único felino selvagem nativo de Portugal além do lince — tem, nas palavras do IUCN Cat Specialist Group, “o tamanho de um gato doméstico grande”. Não é um bicho de porte impressionante; é um gato robusto. E é exatamente por isso que a foto engana: sem os pincéis e as barbas do lince para simplificar tudo, você fica diante de um animal que se parece com o gato que dorme no telhado do vizinho.
A diferença mais fiável está na cauda. O gato-bravo tem uma cauda grossa, cilíndrica e de aspecto “maçudo”, ornamentada com vários anéis pretos e terminada por uma ponta romba e negra — o IUCN Cat Specialist Group descreve-a como “bushy, blunt-ending”. As fontes portuguesas convergem no número que interessa ao campo: são 3 a 5 anéis pretos largos e bem espaçados, e a ponta é arredondada, não afilada, ao contrário da cauda do gato doméstico, que costuma estreitar até uma ponta fina. A FAPAS acrescenta o segundo sinal, que confere robustez à leitura: uma “lista escura no dorso desde a nuca até à base da cauda” — uma linha dorsal contínua e nítida. E há um terceiro que descarta metade dos sósias de imediato: o gato-bravo tem listras, nunca pintas. A pelagem é “cinzenta-acastanhada ou amarelada, percorrida com listas mais escuras (nunca pintas)”. O portal florestas.pt cristaliza o perfil físico: os machos podem ter cerca de um metro de comprimento (da cabeça à ponta da cauda) e pesar cerca de 5 kg, com a cabeça larga, o focinho arredondado e olhos grandes e esverdeados.
Vale medir com calma, porque os números ajudam a calibrar a escala numa foto. A ficha da Naturdata dá o comprimento cabeça-corpo entre 48 e 68 cm e a cauda entre 21 e 38,5 cm, com o macho a rondar os 5 kg (máximo ~7,7 kg) e a fêmea os 3,5 kg (máximo ~5 kg). A monografia da sociedade científica SECEM, com amostras ibéricas incluindo o centro e sul de Portugal, confirma pesos da mesma ordem — machos com média de 4,65 kg e fêmeas de 3,77 kg em Espanha — e descreve a cauda “larga, robusta e de aspecto maçudo, adornada com 2-3 anéis escuros na parte terminal e rematada por uma borla negra”. (Repare que a SECEM fala em 2-3 anéis terminais e as fontes portuguesas em 3-5 anéis no total da cauda — não é contradição, é onde se começa a contar; o padrão descrito é o mesmo.)
Junte tudo numa checklist rápida para a câmera:
| Traço | Gato-bravo | Gato doméstico / assilvestrado |
|---|---|---|
| Cauda | Grossa, cilíndrica, ponta romba e preta, 3–5 anéis largos e espaçados | Muitas vezes mais fina, afilada até a ponta; anelamento irregular |
| Padrão | Listras, nunca pintas; linha dorsal escura contínua | Pode ter pintas, manchas ou qualquer padrão |
| Porte | Robusto, cabeça larga, “feições mais rudes” | Variável; em média mais leve e esguio |
| Cor | Cinzento-acastanhado a amarelado, sóbrio; nunca melânico | Qualquer cor, incluindo preto |
Esse último ponto — “nunca melânico” — é uma pista subestimada. O IUCN Cat Specialist Group afirma sem rodeios: indivíduos melânicos (pretos) nunca foram registrados na Europa para o gato-bravo. Ou seja, um felino totalmente preto numa câmera ibérica não é um gato-bravo puro — é um gato doméstico, um assilvestrado ou um híbrido. É uma das poucas exclusões limpas que a imagem permite.
Um felino totalmente preto numa câmera ibérica não é um gato-bravo puro: a espécie nunca é melânica na Europa.
Por que a foto não basta: o problema do fenótipo selvagem e dos híbridos

Aqui está a parte incómoda, e é preciso dizê-la com todas as letras porque é o coração do tópico. Mesmo com a checklist perfeita, a identificação do gato-bravo por imagem não é conclusiva — e não é por falta de olho treinado. É biologia.
O motivo tem duas camadas. A primeira: alguns gatos domésticos têm, naturalmente, uma pelagem “tipo tigrado” (mackerel tabby) que imita bastante bem o gato-bravo, o chamado fenótipo selvagem. A segunda, e mais séria: o gato-bravo e o gato doméstico hibridam, e os descendentes exibem, como explica a Wilder, “um gradiente de pelagem intermédio entre as espécies parentais”. Um híbrido pode ter uma cauda quase certa e uma linha dorsal quase certa — “quase” sendo a palavra que arruína a identificação. O IUCN Cat Specialist Group é categórico: os híbridos “podem parecer-se muito com o gato-bravo, o que dificulta avaliar o estatuto da espécie”, e “em algumas partes da distribuição, provavelmente restam poucos indivíduos geneticamente puros”.
Foi exatamente isso que aconteceu no Vale do Côa. O gato foi primeiro registrado por foto-armadilhagem, mas — como sublinhou o biólogo Pedro Ribeiro — “este método não é por si só infalível”. A equipa consultou especialistas do ICNF, fez prospecção no terreno, encontrou excrementos e enviou-os para análise genética no âmbito da colaboração com o grupo CONGEN do CIBIO-InBIO/BIOPOLIS da Universidade do Porto, coordenado por Paulo Célio Alves. Só a análise de marcadores moleculares do ADN nuclear permitiu “confirmar geneticamente que o animal era de facto um gato-bravo”. A câmera deu o alerta; o ADN deu o veredito. Essa é a sequência correta, e é a que qualquer registro sério de gato-bravo deve seguir.
O erro inverso também é comum e igualmente grave para os dados: fotografar um gato assilvestrado e registrá-lo como gato-bravo. E não é raro fotografar gatos domésticos no campo, “já que estes animais conseguem viver a dezenas de quilómetros das povoações humanas mais próximas”, com impactos negativos sobre aves, répteis e mamíferos nativos. Um felino tigrado numa serra remota é sedutor — dá vontade de que seja o bicho raro. Mas a raridade não confere a espécie; o padrão e, no limite, a genética conferem. A honestidade de dados manda tratar cada gato tigrado como “possível gato-bravo, a confirmar”, não como um registro fechado.
A câmera levanta a suspeita de gato-bravo; a análise de ADN é que a confirma. Inverter essa ordem é inventar dados.
As pegadas e os excrementos: úteis para “passou um felino”, não para “qual felino”

Muitas vezes o bicho passou e a foto não ficou boa — mas ficou o rasto no barro. Vale gerir a expectativa: para separar gato-bravo de gato doméstico, as pegadas quase nunca são conclusivas.
O naturalista Francisco Álvares, respondendo a um leitor que fotografou pegadas de felino a 1.707 m na Serra da Estrela, foi direto: “os rastos não são normalmente conclusivos para identificar uma espécie, ainda mais com uma escala deficiente”. A pegada “parece ser de um pequeno felídeo (pegadas arredondadas sem evidente marcação de garras), como seja o gato-doméstico ou o gato-bravo”, e mesmo o carácter remoto do local não permite decidir — “somente com base em rastos não é fácil distinguir as duas espécies”. A monografia da SECEM dá a dimensão da pegada do gato-bravo — aspecto arredondado, cerca de 4,5 × 3,5 cm, marcando geralmente 4 dedos sem unhas — precisamente o mesmo desenho de um gato doméstico grande. O traço felino genérico (garras retráteis que não marcam) serve para dizer que passou um felino, não qual.
Os excrementos têm a mesma limitação para o campo, com uma ressalva importante: eles são a matéria-prima da confirmação genética. A SECEM descreve os excrementos do gato-bravo como “longos, cilíndricos e grossos, com 10-20 cm de comprimento e 1,8-3,0 cm de diâmetro”, depositados ao longo de trilhos e cruzamentos de caminhos como forma de comunicação. Visualmente, também não fecham a espécie. Mas foi de excrementos que saiu o ADN que confirmou o gato do Côa — e é essa a razão de, num protocolo sério, a foto-armadilhagem andar de mãos dadas com a prospecção de indícios: a câmera diz onde procurar, e a amostra recolhida no terreno vai ao laboratório fechar a identificação. As próprias equipas do novo Livro Vermelho dos Mamíferos combinaram “armadilhagem fotográfica e transectos para registar indícios de presença (como pegadas e excrementos)” justamente porque nenhum método isolado basta para este felino.
Onde e quando cada um aparece: hábitat e atividade
Saber onde e a que horas esperar cada felino não identifica sozinho — mas estreita o campo de suspeitos e ajuda a montar a câmera no sítio certo.
O lince-ibérico é um especialista extremo: depende do coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), que representa 80–100% da sua dieta, e come entre um e três coelhos por dia. Por isso só se reproduz em matagal mediterrânico com densidade suficiente de coelho, favorecendo um mosaico de mato denso para abrigo e áreas abertas para caçar, e evitando culturas e plantações de eucalipto e pinheiro, onde o coelho escasseia. É sobretudo crepuscular e noturno, embora possa ter atividade diurna, e caça preferencialmente ao nascer do dia e ao anoitecer. As áreas de vida variam entre 4 e 30 km², menores onde há mais coelho. Traduzindo para a câmera: um felino grande, manchado e de barbas, num mosaico de mato e clareiras com coelhos, ao crepúsculo, é o cenário-livro do lince.
O gato-bravo é mais generalista na dieta — roedores e lagomorfos (ratos, arganazes, coelhos e lebres) são a base, com aves, répteis e invertebrados como alternativa. Ocupa habitats florestais e matagais mediterrânicos, bosques caducifólios ou mistos associados a linhas de água, com preferência por zonas rochosas e baixa densidade humana. É crepuscular e noturno, solitário e territorial, com áreas de vida que rondam 2 a 12 km², maiores nos machos. Essa diferença de dieta tem, aliás, uma consequência curiosa que um estudo ibérico de parasitologia registrou: como o gato-bravo caça um número maior de presas pequenas — foram encontrados em média 3 a 7 ratos no estômago de gatos-bravos, contra 1 a 2 coelhos no dos linces — acaba mais exposto a agentes como o Toxoplasma gondii. É um lembrete de que o gato-bravo é um caçador de roedores, não o especialista em coelho que é o lince.
Nenhuma dessas pistas é hemisfério-dependente, e é bom que não seja: o mundo lusófono espalha-se pelos dois hemisférios, e as estações invertem-se entre Portugal e o sul do Brasil ou de Angola. Mas há um ponto de âmbito que precisa de estar claro para o leitor de qualquer latitude — e é o da próxima secção.

Uma nota de âmbito: estes são felinos ibéricos
Se você monta câmeras no Brasil, em Angola ou em Moçambique, este artigo é sobre bichos que não vivem no seu quintal — e é útil saber disso justamente para não os invocar por engano. Nem o lince-ibérico nem o gato-bravo europeu ocorrem fora da Europa e da Ibéria: o lince-ibérico é endémico da Península Ibérica, restrito a Espanha e Portugal, e o gato-bravo europeu distribui-se pela Europa Ocidental — Península Ibérica, nordeste de França, Luxemburgo, sul da Bélgica, oeste da Alemanha e norte da Escócia. No Brasil, o felino que se chama “gato-do-mato” pertence a outros géneros (Leopardus) e é assunto de outro guia; a onça, a suçuarana e a jaguatirica são neotropicais. Confundir enquadramentos entre continentes é um erro de dados tão grave quanto confundir espécies.
O que viaja entre latitudes é o método, não a espécie. A lógica de identificar um felino pela cauda e pelo padrão, de tratar a foto como hipótese e a genética como confirmação, de casar a câmera com a recolha de indícios — tudo isso serve o camera-trapper de Trás-os-Montes tanto quanto o do Cerrado. Só os protagonistas mudam.

A foto-identificação e o censo: o que a câmera de fauna faz melhor
Aqui está aquilo em que a câmera de fauna é genuinamente insubstituível. O padrão de manchas de cada lince-ibérico é individual — como o das onças no Neotrópico —, e é isso que permite não só saber que “há lince na área”, mas contar quantos indivíduos diferentes existem. É a base do censo por foto-armadilhagem que sustenta toda a gestão da espécie.
Os números que saíram dessas câmeras contam uma das maiores histórias de recuperação da conservação mundial. O censo ibérico de lince-ibérico de 2024, conduzido pelas administrações ambientais de Espanha e Portugal, contou 2.401 linces em toda a área de distribuição — 2.047 em Espanha (85,3%) e 354 em Portugal. Recuando a régua, a dimensão do feito aparece: a UICN documenta que a população de indivíduos maduros cresceu de 62 em 2001 para 648 em 2022, com o total (incluindo jovens) a ultrapassar os 2.000, e a área ocupada a saltar de 449 km² em 2005 para 3.320 km² em 2022. Foi, nas palavras do coordenador do projeto LIFE LynxConnect, Francisco Javier Salcedo Ortiz, “a maior recuperação de uma espécie de felino jamais alcançada através da conservação”. Em 2015 o lince passou de Criticamente em Perigo a Em Perigo, e em 2024 foi reclassificado para Vulnerável — mas continua ameaçado, porque a população de maduros ainda é inferior a 1.000. (Como toda a cifra de estatuto, estes números têm data: são o retrato de 2022–2024, a reconfirmar no censo mais recente antes de os citar como atuais.)
Em Portugal, esse edifício ergueu-se do zero. No início do século XXI a espécie estava em pré-extinção no país — os últimos trabalhos de campo nacionais de 2002-2003 não detectaram presença. A reintrodução começou em 2015 no vale do Guadiana, concelho de Mértola: entre 2015 e 2017 foram libertados 27 animais, com reprodução na natureza desde 2016. Acompanhar essa reintrodução significou, na descrição do ICNF, “monitorizar os linces por rádio seguimento, foto-armadilhagem, análises genéticas”, além do estado sanitário e da abundância de coelho. Cada lince que nasce ou se estabelece é catalogado — e é a câmera, cruzada com a genética, que mantém essa contabilidade viva. Vale registrar até onde a genética foi: uma equipa de 50 cientistas sequenciou o genoma do lince-ibérico, descobrindo que ele tem uma das menores diversidades genéticas do mundo entre os mamíferos — abaixo do diabo-da-Tasmânia —, o que torna a gestão de cada indivíduo ainda mais crítica.
Para o gato-bravo, a foto-identificação individual não funciona da mesma maneira — as listras não são tão distintivas quanto as manchas de um lince, e o problema do híbrido contamina qualquer tentativa de contar “gatos-bravos” só por imagem. Aqui a câmera desempenha o papel de primeiro filtro e localizador: assinala onde há um felino candidato para depois a prospecção e a genética entrarem. É a lógica que o estudo ibérico de parasitologia deixa implícita ao lamentar que “não existe um censo populacional fiável” do gato-bravo, em parte porque, não sendo classificado como Em Perigo em toda a Ibéria, atrai menos esforço e menos estudos publicados. A câmera de fauna, bem usada, é uma das poucas formas não invasivas de reduzir essa lacuna.

Por que estes dados importam: a extinção silenciosa do gato-bravo
Ler os felinos ibéricos na câmera não é um exercício de colecionador — alimenta diretamente a conservação, e no caso do gato-bravo há uma urgência que passa despercebida justamente por causa da dificuldade de identificação de que trata este artigo.
O gato-bravo é, hoje, uma das espécies mais ameaçadas de Portugal. Desde 2023, o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental classifica-o como Em Perigo — o mesmo nível de risco do lince-ibérico, do lobo-ibérico e do toirão —, um agravamento face à categoria Vulnerável que tinha no início do século. Estima-se que ocupe menos de 500 km² no país, em núcleos isolados, e que os indivíduos maduros “possam não ultrapassar uma centena”. A ficha do ICNF, mais antiga, já registrava uma redução populacional que “pode ter atingido 30% nos últimos 24 anos”, atribuída à degradação do habitat, à exploração e aos efeitos da hibridação. E, no entanto — sublinha o portal florestas.pt —, apesar do estatuto legal internacional (Diretiva Habitats, Convenção de Berna, CITES), não existem em Portugal programas específicos de proteção da espécie.
O termo que os cientistas usam para isto é revelador: extinção silenciosa. E é silenciosa por uma razão que conecta tudo o que vimos. Como explicou o investigador Pedro Monterroso, da FCUP e do grupo de especialistas em felinos da UICN, “temos gatos domésticos (e híbridos) em áreas supostamente de gato-bravo e, por estes apresentarem características externas parecidas às de gato-bravo, o que nos ‘ilude’ com um cenário de conservação aparentemente favorável”. Ou seja: a mesma semelhança que torna a identificação por câmera tão difícil é a que mascara o declínio — quem não distingue um híbrido de um gato-bravo puro pode achar que a população está bem quando, geneticamente, está a diluir-se. Em Portugal, segundo Paulo Célio Alves, “a taxa de hibridação já vai em 21%”. Na Escócia, o quadro é terminal: mais de 80% dos gatos encontrados no campo são híbridos ou assilvestrados, e a população selvagem é considerada praticamente inviável. Como o gato doméstico descende do gato-africano (Felis lybica), e não do gato-bravo europeu, cada cruzamento altera a genética das populações endémicas ibéricas.
A resposta prática começa no óbvio, e volta a cruzar-se com a câmera. A recomendação repetida por investigadores e ONGs é esterilizar os gatos domésticos que andam no exterior, sobretudo perto de áreas naturais, e não abandonar gatos em zonas rurais — foi o que a Rewilding Portugal decidiu fazer no Côa, apoiando a esterilização dos gatos próximos do local onde o gato-bravo foi registrado, “para evitar riscos de hibridação”. É aqui que uma câmera bem lida ganha peso de conservação: ela não só documenta a presença do felino raro como identifica os gatos assilvestrados a operar na mesma área — a informação de que uma gestão precisa para agir. Uma câmera cheia de “felinos não identificados” é ruído; uma câmera cujas imagens você sabe separar em lince, provável gato-bravo (a confirmar por genética) e gato de alguém vira dado — e dado é o que sustenta a conservação de bichos que, no chão, quase nunca se vê.
A semelhança que dificulta a identificação do gato-bravo é a mesma que esconde o seu declínio — por isso a extinção é silenciosa.
Perguntas frequentes
Como sei se o felino na câmera é um lince-ibérico?
Procure três traços que nenhum gato tem: barbas (gola de pelos na face), pincéis (tufos negros na ponta das orelhas) e uma cauda curta com ponta preta, num corpo alto de pernas longas e pelagem manchada. O macho pesa cerca de 12 kg e a fêmea cerca de 9 kg — muito maior que qualquer gato. Se está em dúvida entre lince e gato, quase de certeza é gato.
Como diferencio o gato-bravo de um gato doméstico na foto?
Pela cauda, sobretudo: no gato-bravo ela é grossa e cilíndrica, com 3 a 5 anéis pretos largos e espaçados, terminando numa ponta romba e preta — não afilada. Some a isso uma linha escura contínua no dorso e a regra “listras, nunca pintas”. Um felino totalmente preto não é gato-bravo puro, porque a espécie nunca é melânica na Europa.
Dá para confirmar um gato-bravo só pela imagem?
Não com segurança. Gatos domésticos com fenótipo selvagem e, principalmente, os híbridos exibem um padrão intermédio que engana o olho. No único registro confirmado no Vale do Côa em 30 anos, a câmera levantou a suspeita, mas a confirmação veio de excrementos analisados por ADN nuclear. Trate cada gato tigrado como “possível gato-bravo, a confirmar”.
As pegadas ajudam a distinguir gato-bravo de gato doméstico?
Pouco. As pegadas de ambos são arredondadas, sem marca de garras e praticamente iguais (cerca de 4,5 × 3,5 cm), por isso “somente com base em rastos não é fácil distinguir as duas espécies”. O rasto confirma que passou um felino; para dizer qual, é preciso a foto e, no limite, a genética.
Por que a hibridação é tão grave para o gato-bravo?
Porque dilui a genética de uma espécie Em Perigo. Em Portugal a taxa de hibridação já ronda os 21%, e na Escócia mais de 80% dos gatos no campo são híbridos ou assilvestrados. Como os híbridos se parecem com gatos-bravos, o declínio fica mascarado — daí falar-se em “extinção silenciosa”. A medida-chave é esterilizar gatos domésticos que andem no exterior perto de áreas naturais.
O lince-ibérico ou o gato-bravo podem aparecer na minha câmera no Brasil ou em África?
Não. Ambos são exclusivos da Europa e da Península Ibérica — o lince-ibérico é endémico da Ibéria, e o gato-bravo europeu ocorre na Europa Ocidental. No Brasil, o “gato-do-mato” pertence a outros géneros e é assunto de outro guia. O que se aproveita entre continentes é o método de identificação, não estas espécies.