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Onça-pintada, onça-parda ou jaguatirica: como identificar os felinos na câmera de fauna

Uma onça-pintada cruzando uma trilha na penumbra da floresta tropical, mostrando as grandes rosetas com pintas escuras no centro

Chega a foto no cartão, de madrugada, e lá está o vulto: um felino grande cruzando a trilha, olhos brilhando no infravermelho. E aí bate a dúvida que todo mundo que monta câmera na América Latina já teve. É onça-pintada? Onça-parda? Ou só uma jaguatirica que a distância fez parecer maior? A resposta importa — para o pesquisador que monta um censo, para o proprietário que quer saber quem anda no pasto, para o gestor que precisa relatar o que a área abriga. E, ao contrário do que parece, quase nunca é o tamanho que decide.

A resposta curta, se foi por ela que você veio: olhe primeiro a pelagem. A onça-pintada (Panthera onca) tem rosetas — anéis escuros — e, nas maiores, uma ou duas pintas dentro do anel, um detalhe que funciona como impressão digital. A onça-parda (Puma concolor, a suçuarana) é o oposto: pelagem uniforme, sem manchas no adulto, mais esguia e sem o ronco da pintada. A jaguatirica (Leopardus pardalis) também é pintada, mas é bem menor, com as manchas formando cadeias e listras alongadas em vez de rosetas isoladas. O porte engana — uma fêmea de onça-pintada e um macho de onça-parda podem ter quase a mesma massa onde as duas convivem —, então é o padrão do pelo, o formato do rastro e o jeito do corpo que fecham a identificação, não a régua. O resto deste artigo é sobre como fazer isso com segurança na câmera: separar os três felinos maiores, não confundi-los com os gatos-do-mato e o gato-mourisco, ler o rastro felino contra o de um cão, identificar cada onça pelo desenho das rosetas e montar o armadilhamento fotográfico que transforma essas fotos em dados.

Na câmera, quem decide a espécie é o desenho da pelagem e o formato do rastro — quase nunca o tamanho do bicho.

Os três felinos maiores, lado a lado

Comece pelo mais confiável de todos os sinais na câmera: o desenho do pelo. Os três felinos que geram a maior parte das dúvidas — onça-pintada, onça-parda e jaguatirica — têm pelagens tão distintas que, com uma foto minimamente nítida, dá para separá-los antes mesmo de pensar em tamanho.

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior carnívoro terrestre do Brasil e o terceiro maior felino do mundo, atrás só do leão e do tigre. Mas o que a entrega não é o porte: são as manchas. Como resume o guia de convivência do órgão ambiental do Mato Grosso do Sul, “na cabeça, na nuca e na cauda as pintas são sólidas (cheias), enquanto nos flancos elas formam rosetas”, e “as maiores rosetas possuem uma ou duas pintas em seu interior”. Esse detalhe — a pinta dentro da roseta — é o que separa a onça-pintada de qualquer sósia. O mesmo guia faz a comparação que fecha a questão: o padrão lembra o do leopardo africano, mas “nos leopardos, porém, as rosetas nunca apresentam pintas em seu interior”. Guarde isso, porque é a confusão mais comum na cabeça de quem viu leopardo em documentário: o leopardo não vive nas Américas. Se o bicho tem roseta com pinta dentro e está numa câmera neotropical, é onça-pintada.

Vale um aviso que economiza laudos errados: a onça-preta não é outra espécie. A onça amarela e a preta são a mesma Panthera onca e cruzam entre si; a diferença é só a quantidade de melanina, e não há evidência de que a forma melânica se comporte de modo diferente. No infravermelho de uma câmera noturna, uma onça melânica aparece quase chapada de escura — as rosetas somem no preto do pelo —, e é justamente aí que muita gente erra, achando que viu um “felino desconhecido”. É onça-pintada.

A onça-parda (Puma concolor), a suçuarana, é o retrato oposto. Adulta, ela tem pelagem uniforme, sem manchas — daí os nomes leão-baio e onça-vermelha —, é “menor e tem aparência menos robusta” que a pintada, e há um detalhe de comportamento que a câmera às vezes não capta mas o campo sim: “a onça-parda não ruge (esturra) como a onça-pintada. Ela produz um som mais parecido com um miado”. Na imagem, procure o corpo mais esguio, as pernas proporcionalmente mais longas, a cauda comprida e — acima de tudo — a ausência de qualquer mancha. Só os filhotes de onça-parda nascem pintados; some com a idade. Um adulto pardo e liso, cauda longa, é suçuarana.

A jaguatirica (Leopardus pardalis) é a terceira peça, e a que o tamanho mais atrapalha. Ela também é pintada, o que gera a confusão com a onça-pintada em fotos sem escala. A diferença é dupla: a jaguatirica é muito menor — um felino de médio porte, não um grandão — e suas manchas tendem a se organizar em cadeias e faixas alongadas, às vezes quase listras, em vez das rosetas isoladas e arredondadas da onça-pintada. É, além disso, a espécie de felino mais abundante na maioria das áreas neotropicais onde ocorre, com densidades relativamente altas. Ou seja: estatisticamente, o felino pintado que mais aparece na sua câmera provavelmente é jaguatirica, não onça-pintada — o que, por si só, já deveria calibrar o seu palpite.

EspéciePelagemPorte / silhuetaO que decide na câmera
Onça-pintada (Panthera onca)Rosetas com pinta(s) dentro; forma melânica = “onça-preta”Grande, atarracada e robusta, cabeça largaRoseta com pinta interna; corpo maciço
Onça-parda / suçuarana (Puma concolor)Uniforme, sem manchas no adultoEsguia, pernas longas, cauda compridaAusência total de manchas; silhueta atlética
Jaguatirica (Leopardus pardalis)Pintada, manchas em cadeias/listrasBem menor (médio porte)Tamanho pequeno + manchas alongadas
A onça amarela e a onça-preta são a mesma espécie: no infravermelho, a melânica só parece “outro bicho”.

Por que o tamanho engana (e o que usar no lugar)

Detalhe da pelagem de uma onça-pintada com grandes rosetas de borda irregular, cada uma com uma ou mais pintas escuras no centro

Se há uma regra para tatuar na testa, é esta: não identifique felino grande pelo tamanho. Parece contraintuitivo, mas há biologia sólida por trás.

Onça-pintada e onça-parda são simpátricas — dividem o mesmo território — em toda a distribuição da pintada. E, onde as duas convivem, acontece um fenômeno curioso que os biólogos chamam de deslocamento de caráter: a onça-parda fica menor justamente nas áreas onde há onça-pintada, e maior onde a pintada não existe, uma pressão da seleção natural para reduzir a competição. O resultado prático, medido num estudo no sul do México, é desconcertante para quem confia no olho: “o tamanho e a massa corporal de fêmeas de onça-pintada eram semelhantes aos de machos de onça-parda” na região. Traduzindo para a sua câmera: um felino de porte médio-grande, sem escala clara na foto, pode genuinamente ser uma fêmea de pintada ou um macho de parda — o tamanho não resolve.

O que resolve, então? Três coisas, em ordem de confiança. Primeiro, a pelagem: pintada tem roseta com pinta dentro, parda não tem mancha nenhuma — isso sozinho já separa as duas na quase totalidade dos casos. Segundo, a silhueta e as proporções: a onça-pintada é atarracada, de cabeça grande, peito profundo e pernas curtas para o corpo; a onça-parda é atlética, de cabeça pequena, pernas longas e cauda muito comprida. Mesmo no escuro, essas proporções costumam sobreviver na imagem quando as manchas não ajudam. Terceiro, o rastro — que é o assunto da próxima seção, e que muitas vezes está ali no barro logo abaixo da câmera.

E a jaguatirica no meio disso? Aqui o tamanho ajuda, mas com uma ressalva. A jaguatirica é claramente menor que as duas onças, então numa foto com referência de escala (um tronco, uma pedra, um alvo conhecido) o porte já a separa. Sem escala, porém, uma jaguatirica próxima da lente pode parecer do tamanho de uma onça distante — e aí você volta à pelagem: rosetas grandes e arredondadas com pinta dentro (pintada) versus manchas menores em cadeia (jaguatirica). A câmera que registra data, hora e, de preferência, um objeto de tamanho conhecido no quadro é a que menos deixa você no escuro.

Uma jaguatirica na floresta mostrando as manchas alongadas e rosetas abertas que se encadeiam formando faixas oblíquas nos flancos

Os felinos menores que não podem virar “jaguatirica”

Depois das três estrelas, vem a armadilha que pega até gente experiente: o Brasil tem outros felinos pequenos e pintados, e a câmera, sobretudo à noite e a distância, achata as diferenças. Chamar tudo de “jaguatirica” superestima uma espécie e apaga as outras — um erro de dados sério para qualquer monitoramento.

O sósia mais traiçoeiro é o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), “considerado o menor felino do Brasil, pesando cerca de 1 a 3 kg”, com “pelagem marcada por rosetas escuras, ou completamente preta nos indivíduos melânicos”. Repare: pelagem pintada “semelhante à da onça-pintada e da jaguatirica”. É a mesma gramática de manchas, só que num bicho do tamanho de um gato doméstico magro. A distância, sem escala, um gato-do-mato pode facilmente ser tomado por uma jaguatirica jovem. Complica ainda mais o fato de que “gato-do-mato” abrange mais de uma espécie: o L. guttulus (sul e sudeste) foi por muito tempo tratado como subespécie do Leopardus tigrinus (norte e nordeste), até que análises genéticas os reconheceram como espécies distintas. Ou seja, nomear “gato-do-mato” na sua planilha já exige saber a região.

O segundo é o gato-maracajá, o margay (Leopardus wiedii), que se confunde com uma jaguatirica pequena. O traço que o entrega é a cauda desproporcional: é “uma das mais arborícolas de todos os felinos”, com “caudas longas que podem representar até 40% do seu corpo” e “tornozelos que giram até 180°” para descer troncos de cabeça para baixo. Some a isso “olhos bem grandes e destacados, focinho saliente, patas grandes e cauda mais longa do que todo o seu corpo”. Na câmera: se o felino pintado tem uma cauda que parece grande demais para o corpo e olhos enormes, pense em margay antes de jaguatirica.

O terceiro é o coringa, porque não é pintado: o gato-mourisco ou jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi). Ele tem “pelagem de vermelho à cinza escura” — uniforme, sem manchas — e é “apenas um pouco maior que um gato doméstico”, sendo, geneticamente, o parente mais próximo da própria onça-parda. É a receita perfeita para um engano ao contrário: um felino liso e escuro, de corpo alongado, que alguém pode confundir com uma onça-parda jovem — quando é um bicho de poucos quilos. O tamanho, de novo, é o árbitro; e um detalhe de comportamento ajuda a filtrar as fotos, porque o gato-mourisco é “predominantemente diurno”, ao contrário dos felinos pintados menores.

Chamar todo felino pintado pequeno de “jaguatirica” infla uma espécie e apaga o gato-do-mato, o margay e o gato-mourisco.

O rastro: felino não marca as unhas

Uma onça-parda de cor leonada uniforme e sem manchas caminhando na floresta neotropical, com a cabeça pequena e arredondada e a cauda longa

Muitas vezes o bicho passou e a foto não ficou boa — mas ele deixou a pegada no barro, e o rastro conta o resto. A boa notícia é que existe uma regra quase universal para separar felino de cão, e ela é fácil de checar.

Em felinos — onça-pintada, onça-parda, jaguatirica —, as garras são retráteis e ficam recolhidas ao caminhar, então não marcam no chão. Nos canídeos, não: a garra é fixa e imprime. O estudo mais rigoroso sobre isso, feito com 167 rastros de pumas, onças-pintadas, cães grandes e lobos-guará, quantificou a diferença: as marcas de garra estavam ausentes em 93,5% dos rastros de onça-parda e onça-pintada, enquanto 97% dos rastros de cão as apresentavam. Então a primeira pergunta diante de uma pegada é simples: vejo marca de unha à frente dos dedos? Se vejo, provavelmente é cão (ou lobo-guará); se não vejo, provavelmente é felino.

“Provavelmente” é a palavra-chave, porque o próprio estudo derruba o excesso de confiança. Os métodos tradicionais de identificação de rastro — as chaves qualitativas que muita gente aprende — se saíram mal: a maioria deles classificou errado mais de 20% dos rastros, e mesmo voluntários experientes variaram muito na acurácia. Só quando os autores usaram medidas quantitativas de quatro características — presença ou ausência de marca de garra; formato da frente da almofada plantar; formato da base da almofada; e formato dos dedos internos — o erro caiu para menos de 10%. A lição para o campo é honesta: a marca de garra é um ótimo primeiro filtro, mas não um veredito; para separar onça-pintada de onça-parda no rastro, é o conjunto de características que conta, não um traço só.

E como separar as duas onças no barro? O guia do Pantanal descreve bem: “a pegada da onça-pintada, geralmente maior que a da parda, tem os dedos arredondados, com a largura total um pouco maior que o comprimento”, enquanto “o rastro da onça-parda é mais comprido do que largo e os dedos tendem a ser pontudos (parecido com o rastro do cachorro doméstico, porém sem marcar as unhas)”, com a almofada palmar exibindo lóbulos na parte traseira. Repare como isso reforça a regra: a pegada da suçuarana parece de cão pelo formato alongado — mas a ausência de unha a devolve para o time dos felinos.

Uma técnica prática, quando a foto não basta e você quer registrar o rastro: fazer um molde de gesso da pegada nítida, uma cartolina em volta formando um cilindro e o gesso derramado dentro — o guia do Pantanal traz o passo a passo. É uma forma barata de guardar a evidência para conferir com calma depois.

Já os outros vestígios — fezes, pelos — merecem cautela redobrada. Um material felino existe e pode indicar presença, mas a identificação da espécie a partir dele é escorregadia: comparando morfologia de pelo com métodos moleculares para felinos neotropicais, os pesquisadores mostraram que só o pelo, a olho, não é confiável para dizer qual felino era — o DNA resolve, a lupa não. E a chave prática de identificação de fezes começa com um alerta que vale para qualquer um: “a identificação de fezes… pode ser uma tarefa difícil porque as fezes mudam conforme a dieta do animal”, além do cuidado sanitário ao manuseá-las. Ou seja: rastro e fezes ajudam a confirmar que um felino passou; para dizer qual felino, a câmera continua sendo a testemunha mais confiável.

Um gato-maracajá pequeno e arborícola sobre um galho, com olhos bem grandes e saltados e uma cauda longuíssima, imitando o desenho da jaguatirica

Identificar o indivíduo pela roseta — e por que o puma foge à regra

Aqui está o que torna a onça-pintada e a jaguatirica tão especiais para o monitoramento por câmera: o padrão de manchas de cada bicho é único, como uma impressão digital, e não muda ao longo da vida. Isso permite não só saber que “há onça na área”, mas contar quantos indivíduos diferentes existem — a espinha dorsal da técnica de captura-recaptura, que sustenta as estimativas de densidade e de tamanho populacional.

Na prática, foto-identifica-se cada animal comparando o desenho das rosetas (ou o “manto” da jaguatirica) entre registros. Como o volume de imagens explode num censo, os pesquisadores recorrem a softwares de reconhecimento de padrões. Um estudo comparou dois deles em 359 fotos de onça-pintada e 332 de jaguatirica capturadas em Belize: o HotSpotter acertou a correspondência como primeira opção em 71–82% das vezes, e o Wild-ID em 58–73%, com melhor desempenho em imagens de boa qualidade. A ressalva, que o mesmo estudo faz questão de sublinhar, é que “ainda é necessária a participação humana para confirmar as correspondências” — o software acelera, mas quem bate o martelo é o olho treinado. É por isso que a qualidade da foto importa tanto: um flanco bem iluminado e de lado vale ouro; um vulto tremido, quase nada.

E a onça-parda? Aqui a natureza prega uma peça no método. Como a suçuarana não tem manchas, ela simplesmente não pode ser individualizada pelo pelo — e isso é, nas palavras dos pesquisadores, “controverso” justamente porque a captura-recaptura por foto “geralmente se limita a espécies com padrões de pelagem conspícuos, como listras ou pintas”. Sem esse padrão, como recontar pumas? A saída tem sido criativa: um estudo testou identificar cada onça-parda pelo rosto, usando um acessório de câmera com luz e som para atrair o olhar do bicho e conseguir uma foto frontal; a concordância entre avaliadores foi de moderada a boa (kappa de Fleiss = 0,54), quase 93% melhor que os métodos convencionais de câmera. Outras abordagens usam cicatrizes, marcas individuais e coleiras com telemetria. A mensagem para o seu monitoramento: onça-pintada e jaguatirica você reconta pela pelagem; onça-parda, não — para ela, o desenho populacional exige outros recursos, e é bom saber disso antes de prometer um número de pumas a partir de fotos.

Esse trabalho não é teórico. No Parque Nacional do Iguaçu, o Projeto Onças do Iguaçu — parceria do Instituto Pró-Carnívoros com o ICMBio e o Proyecto Yaguareté, da Argentina — conduz censos bianuais por armadilha fotográfica, catalogando cada onça-pintada pelo padrão de rosetas. É “um dos maiores esforços mundiais de monitoramento de onças”, com “cerca de 600.000 hectares amostrados, já há 12 anos”. E os números que saíram dessas fotos contam uma história de recuperação: “entre 2009 a 2020 a população estimada de onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu passou de 11 para 24 animais”, e no Corredor Verde entre Brasil e Argentina a estimativa chegou a cerca de 90 indivíduos — “cerca de um terço de todas as onças-pintadas estimadas para o bioma Mata Atlântica”. Cada um desses animais foi reconhecido, individualmente, pela sua roseta.

A roseta identifica cada onça-pintada como uma impressão digital — mas a onça-parda, sem manchas, obriga a recontar de outro jeito.

Como montar o armadilhamento fotográfico

Um gato-mourisco de cor lisa, corpo baixo e alongado, patas curtas, cabeça pequena e cauda muito longa, cruzando o chão da floresta de dia

A câmera de fauna venceu como método de estudo de felinos por um motivo simples: esses bichos são elusivos e discretos, e a observação direta quase não os alcança. A câmera é não invasiva e trabalha 24 horas, capturando quem passa, a que hora e — pela pelagem — qual indivíduo. Mas há diferença entre pendurar uma câmera numa árvore e montar um esquema que gere dados confiáveis, e a literatura de grandes felinos é bem clara sobre onde as pessoas erram.

O primeiro princípio é o espaçamento entre câmeras, e ele nasce da biologia do bicho. Como a identificação depende de recapturar o mesmo indivíduo em câmeras diferentes, elas não podem estar tão afastadas a ponto de uma área de vida inteira caber no vão entre duas. A prática consagrada para onça-pintada é espaçar as câmeras a cerca de 2 a 3 km, uma distância ligada ao tamanho mínimo da área de vida de uma fêmea — historicamente estimado em torno de 10 km² — de modo que a malha “enxergue” cada território. O segundo princípio é o tamanho da área amostrada: a revisão de referência recomenda que a área do estudo seja três a quatro vezes a área de vida média da espécie. E o alerta que dá nome ao trabalho é o mais importante: quando o polígono de câmeras é menor do que aproximadamente uma área de vida, as estimativas ficam fortemente enviesadas — e boa parte dos estudos publicados de densidade de onça, segundo essa mesma revisão, não cumpria os requisitos mínimos de desenho. Em outras palavras: uma malha pequena demais não subestima nem superestima por acaso; ela mente de forma sistemática.

Para a onça-parda, o desafio metodológico é ainda maior, porque a falta de manchas impede a foto-identificação clássica. As soluções passam por desenhos agrupados de amostragem combinados com telemetria (coleiras) e modelos de marca-reavistamento espacial: um estudo cobriu mais de 15.000 km² assim, e integrar os dados de coleira aos das câmeras “melhorou substancialmente” as estimativas de densidade. Não é o tipo de coisa que um proprietário monta sozinho — mas é bom entender por que um censo de onça-parda é mais complexo (e mais caro) que um de onça-pintada.

A jaguatirica, por ser pintada, volta a se comportar bem com a câmera. Na Reserva Amanã, na Amazônia Central, três temporadas de armadilhamento na estação seca — um esforço total de 7.020 armadilhas-dia que rendeu 93 registros independentes — permitiram estimar a densidade por captura-recaptura espacial em 24,84 ± 6,27 jaguatiricas por 100 km², a primeira estimativa do tipo para a Amazônia brasileira. É um bom retrato do que a técnica entrega quando o desenho está correto: um número com margem de erro explícita, e não um chute.

Onde apontar as câmeras? Nos corredores que os felinos de fato usam — trilhas, aceiros, margens de rios, passagens naturais no meio da mata densa. E vale casar o esforço bianual de censo com um monitoramento contínuo entre as campanhas, como faz o projeto do Iguaçu, que além dos censos “monitora continuamente a fauna do parque”, acompanhando a atividade das onças e registrando toda a comunidade — de queixadas e quatis a jaguatiricas, gatos-mouriscos e onças-pardas na mesma grade. É esse acompanhamento no tempo que transforma fotos avulsas em uma série de dados.

Uma pegada felina arredondada, sem marcas de unhas, impressa na lama de uma trilha, ao lado de pegadas de presas menores

Quando eles se movem: leia a atividade pela espécie

Uma vez que você sabe quem está na câmera, o quando vira informação — e o horário de atividade, além de ajudar a interpretar os registros, é mais um traço que ajuda a separar as espécies.

Os felinos maiores tendem ao noturno e ao crepuscular, mas com nuance. Um estudo com 3.656 registros de onça-pintada ao longo de dois anos e meio de câmera, na Venezuela, mediu os bichos ativos em média 11,7 horas por dia, num padrão “principalmente noturno e crepuscular” — mas com variação marcante conforme sexo, idade e estado reprodutivo: as fêmeas reprodutivas foram as mais ativas (13,2 h/dia), seguidas de machos adultos (10,9 h), fêmeas não reprodutivas (10,5 h) e filhotes (8,7 h), com picos logo após o pôr do sol e antes do amanhecer. Ou seja, “onça é noturna” é uma boa primeira aproximação, mas o horário exato dos seus registros depende de quem é o animal.

O quadro mais útil, porém, vem de um estudo que olhou a comunidade inteira de predadores de uma vez, na Costa Rica, e que praticamente entrega uma chave de identificação por horário: “**os menores felinos do gênero Leopardus (jaguatirica, gato-maracajá, gato-do-mato) foram principalmente noturnos, os maiores felinos (onça-pintada e onça-parda) foram catemerais, e o menor gato-mourisco… foi majoritariamente diurno**”. Catemeral quer dizer ativo tanto de dia quanto de noite, sem um pico rígido. Junte isso ao que já vimos: um felino pintado registrado às três da manhã tem mais cara de jaguatirica ou gato-do-mato; um felino liso registrado ao meio-dia tem mais cara de gato-mourisco do que de onça-parda. O horário não identifica sozinho — mas, somado à pelagem e ao porte, reduz o campo de suspeitos.

Esse estudo ainda oferece uma explicação elegante para por que cada bicho se move quando se move: a conclusão foi que “a disponibilidade de presa é mais importante que a competição” para definir o padrão de atividade. Os felinos seguem a comida. Para quem monitora um ponto ao longo do tempo, isso é um convite a cruzar cada foto de felino com a hora e com o que mais aparece na câmera — as presas — em vez de tratar o horário como uma constante da espécie.

O horário não identifica sozinho, mas o pintado às três da manhã tem cara de jaguatirica, e o liso ao meio-dia, de gato-mourisco.

Conservação e monitoramento: por que esses dados importam

Uma onça-pintada capturada de noite por uma câmera de fauna, olhos brilhando em infravermelho ao cruzar a trilha
Comparação lado a lado de duas fotos de onça-pintada mostrando o padrão único de rosetas em cada flanco, usado para reconhecer indivíduos

Ler os felinos na câmera não é só um exercício de identificação; alimenta diretamente a conservação, e o Brasil tem um arcabouço robusto por trás disso. Vale, porém, um cuidado de leitura: status de conservação muda com o tempo, então cada número abaixo vem com a sua data.

No panorama global, a onça-pintada é classificada como Quase Ameaçada pela Lista Vermelha da IUCN (avaliação de 2016), com população em declínio e severamente fragmentada. A onça-parda e a jaguatirica aparecem como Menos Preocupante (avaliações de 2014), ambas também com tendência populacional de queda. Mas a régua nacional conta uma história mais fina — e, para a onça-parda, mais dura. No Brasil, o CENAP/ICMBio estima a população efetiva de onça-pintada em menos de 10.000 indivíduos, com um declínio de cerca de 30% em 27 anos, e registra que a espécie ocorre em quase todos os biomas exceto o Pampa. A onça-parda, com população efetiva estimada em cerca de 4.000 indivíduos no país, é classificada como Vulnerável no Brasil — mais preocupante que o “menos preocupante” global, um descompasso que importa quem relata dados. Já a jaguatirica, com população efetiva superior a 40.000 indivíduos e “a espécie de felino mais abundante” na maioria das áreas, é Menos Preocupante também nacionalmente. Três felinos, três situações distintas — e é o monitoramento por câmera que mantém esses números vivos e revisáveis.

Esse monitoramento é institucional. O Plano de Ação Nacional (PAN) para a conservação da onça-pintada, do ICMBio, avalia o estado da espécie bioma a bioma — Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal — e inscreve o monitoramento populacional entre suas ações. Projetos de campo como o do Iguaçu põem isso em prática, e a série histórica de rosetas catalogadas ali é o que permite dizer, com base em evidência, que aquela população de onça-pintada cresceu de 11 para 24 animais em uma década. Cada foto bem identificada — a espécie certa, o indivíduo certo — é um tijolo nesse edifício.

Fica então a razão de ser deste artigo. Uma câmera cheia de “felinos não identificados” é ruído; uma câmera cujas fotos você sabe separar em onça-pintada, onça-parda, jaguatirica e os pequenos gatos vira dado — e dado é o que sustenta a conservação de bichos que, no chão, você quase nunca vê. Aprender a ler a pelagem, o rastro e o horário é, no fim, aprender a transformar imagem em conhecimento.

Perguntas frequentes

Como diferencio onça-pintada de onça-parda na foto da câmera?

Pela pelagem, antes de tudo: a onça-pintada tem rosetas com uma ou duas pintas dentro do anel; a onça-parda adulta é uniforme, sem mancha nenhuma. Confirme pela silhueta — a pintada é atarracada e de cabeça larga, a parda é esguia e de cauda longa. Não use o tamanho, porque onde as duas convivem uma fêmea de pintada e um macho de parda podem ter quase a mesma massa.

O leopardo pode aparecer na minha câmera na América Latina?

Não. O leopardo é uma espécie do Velho Mundo (África e Ásia) e não ocorre nas Américas. A confusão é comum porque as rosetas se parecem — mas as do leopardo são vazias por dentro, enquanto as da onça-pintada têm pintas internas. Roseta com pinta dentro, em câmera neotropical, é onça-pintada.

Todo felino pintado pequeno é jaguatirica?

Não, e tratá-lo assim distorce os dados. O gato-do-mato-pequeno (1 a 3 kg) e o gato-maracajá (margay) também são pintados e podem passar por jaguatirica a distância. O margay se entrega pela cauda enorme (até 40% do corpo) e pelos olhos grandes; o gato-do-mato, pelo tamanho diminuto. Use uma referência de escala no quadro sempre que puder.

Dá para saber se a marca no barro é de felino ou de cão?

Na maioria das vezes, sim: felinos recolhem as garras e não marcam as unhas, enquanto cães deixam a marca. Num estudo, a garra estava ausente em 93,5% dos rastros de onça e presente em 97% dos de cão. Mas não é infalível — os métodos tradicionais erram mais de 20% —, então olhe o conjunto (marca de garra, almofada, dedos), não um traço só.

Por que não consigo identificar cada onça-parda individualmente como faço com a onça-pintada?

Porque a onça-parda não tem manchas, e a identificação individual por foto depende de um padrão único de pelagem — rosetas na pintada, manchas na jaguatirica. Sem esse padrão, os pesquisadores recorrem a rosto, cicatrizes e coleiras com telemetria para recontar pumas, o que torna um censo de onça-parda mais complexo.

A que distância devo espaçar as câmeras para um censo de onça?

Para onça-pintada, a prática consagrada é cerca de 2 a 3 km entre câmeras, ligada ao tamanho da área de vida, e cobrir uma área total de três a quatro vezes a área de vida média da espécie. Malhas menores que isso enviesam a estimativa de forma sistemática. Aponte as câmeras para trilhas, aceiros e passagens naturais.