Chega a foto no cartão, de madrugada, e lá está o vulto: um felino grande cruzando a trilha, olhos brilhando no infravermelho. E aí bate a dúvida que todo mundo que monta câmera na América Latina já teve. É onça-pintada? Onça-parda? Ou só uma jaguatirica que a distância fez parecer maior? A resposta importa — para o pesquisador que monta um censo, para o proprietário que quer saber quem anda no pasto, para o gestor que precisa relatar o que a área abriga. E, ao contrário do que parece, quase nunca é o tamanho que decide.
A resposta curta, se foi por ela que você veio: olhe primeiro a pelagem. A onça-pintada (Panthera onca) tem rosetas — anéis escuros — e, nas maiores, uma ou duas pintas dentro do anel, um detalhe que funciona como impressão digital. A onça-parda (Puma concolor, a suçuarana) é o oposto: pelagem uniforme, sem manchas no adulto, mais esguia e sem o ronco da pintada. A jaguatirica (Leopardus pardalis) também é pintada, mas é bem menor, com as manchas formando cadeias e listras alongadas em vez de rosetas isoladas. O porte engana — uma fêmea de onça-pintada e um macho de onça-parda podem ter quase a mesma massa onde as duas convivem —, então é o padrão do pelo, o formato do rastro e o jeito do corpo que fecham a identificação, não a régua. O resto deste artigo é sobre como fazer isso com segurança na câmera: separar os três felinos maiores, não confundi-los com os gatos-do-mato e o gato-mourisco, ler o rastro felino contra o de um cão, identificar cada onça pelo desenho das rosetas e montar o armadilhamento fotográfico que transforma essas fotos em dados.
Na câmera, quem decide a espécie é o desenho da pelagem e o formato do rastro — quase nunca o tamanho do bicho.
Os três felinos maiores, lado a lado
Comece pelo mais confiável de todos os sinais na câmera: o desenho do pelo. Os três felinos que geram a maior parte das dúvidas — onça-pintada, onça-parda e jaguatirica — têm pelagens tão distintas que, com uma foto minimamente nítida, dá para separá-los antes mesmo de pensar em tamanho.
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior carnívoro terrestre do Brasil e o terceiro maior felino do mundo, atrás só do leão e do tigre. Mas o que a entrega não é o porte: são as manchas. Como resume o guia de convivência do órgão ambiental do Mato Grosso do Sul, “na cabeça, na nuca e na cauda as pintas são sólidas (cheias), enquanto nos flancos elas formam rosetas”, e “as maiores rosetas possuem uma ou duas pintas em seu interior”. Esse detalhe — a pinta dentro da roseta — é o que separa a onça-pintada de qualquer sósia. O mesmo guia faz a comparação que fecha a questão: o padrão lembra o do leopardo africano, mas “nos leopardos, porém, as rosetas nunca apresentam pintas em seu interior”. Guarde isso, porque é a confusão mais comum na cabeça de quem viu leopardo em documentário: o leopardo não vive nas Américas. Se o bicho tem roseta com pinta dentro e está numa câmera neotropical, é onça-pintada.
Vale um aviso que economiza laudos errados: a onça-preta não é outra espécie. A onça amarela e a preta são a mesma Panthera onca e cruzam entre si; a diferença é só a quantidade de melanina, e não há evidência de que a forma melânica se comporte de modo diferente. No infravermelho de uma câmera noturna, uma onça melânica aparece quase chapada de escura — as rosetas somem no preto do pelo —, e é justamente aí que muita gente erra, achando que viu um “felino desconhecido”. É onça-pintada.
A onça-parda (Puma concolor), a suçuarana, é o retrato oposto. Adulta, ela tem pelagem uniforme, sem manchas — daí os nomes leão-baio e onça-vermelha —, é “menor e tem aparência menos robusta” que a pintada, e há um detalhe de comportamento que a câmera às vezes não capta mas o campo sim: “a onça-parda não ruge (esturra) como a onça-pintada. Ela produz um som mais parecido com um miado”. Na imagem, procure o corpo mais esguio, as pernas proporcionalmente mais longas, a cauda comprida e — acima de tudo — a ausência de qualquer mancha. Só os filhotes de onça-parda nascem pintados; some com a idade. Um adulto pardo e liso, cauda longa, é suçuarana.
A jaguatirica (Leopardus pardalis) é a terceira peça, e a que o tamanho mais atrapalha. Ela também é pintada, o que gera a confusão com a onça-pintada em fotos sem escala. A diferença é dupla: a jaguatirica é muito menor — um felino de médio porte, não um grandão — e suas manchas tendem a se organizar em cadeias e faixas alongadas, às vezes quase listras, em vez das rosetas isoladas e arredondadas da onça-pintada. É, além disso, a espécie de felino mais abundante na maioria das áreas neotropicais onde ocorre, com densidades relativamente altas. Ou seja: estatisticamente, o felino pintado que mais aparece na sua câmera provavelmente é jaguatirica, não onça-pintada — o que, por si só, já deveria calibrar o seu palpite.
| Espécie | Pelagem | Porte / silhueta | O que decide na câmera |
|---|---|---|---|
| Onça-pintada (Panthera onca) | Rosetas com pinta(s) dentro; forma melânica = “onça-preta” | Grande, atarracada e robusta, cabeça larga | Roseta com pinta interna; corpo maciço |
| Onça-parda / suçuarana (Puma concolor) | Uniforme, sem manchas no adulto | Esguia, pernas longas, cauda comprida | Ausência total de manchas; silhueta atlética |
| Jaguatirica (Leopardus pardalis) | Pintada, manchas em cadeias/listras | Bem menor (médio porte) | Tamanho pequeno + manchas alongadas |
A onça amarela e a onça-preta são a mesma espécie: no infravermelho, a melânica só parece “outro bicho”.
Por que o tamanho engana (e o que usar no lugar)

Se há uma regra para tatuar na testa, é esta: não identifique felino grande pelo tamanho. Parece contraintuitivo, mas há biologia sólida por trás.
Onça-pintada e onça-parda são simpátricas — dividem o mesmo território — em toda a distribuição da pintada. E, onde as duas convivem, acontece um fenômeno curioso que os biólogos chamam de deslocamento de caráter: a onça-parda fica menor justamente nas áreas onde há onça-pintada, e maior onde a pintada não existe, uma pressão da seleção natural para reduzir a competição. O resultado prático, medido num estudo no sul do México, é desconcertante para quem confia no olho: “o tamanho e a massa corporal de fêmeas de onça-pintada eram semelhantes aos de machos de onça-parda” na região. Traduzindo para a sua câmera: um felino de porte médio-grande, sem escala clara na foto, pode genuinamente ser uma fêmea de pintada ou um macho de parda — o tamanho não resolve.
O que resolve, então? Três coisas, em ordem de confiança. Primeiro, a pelagem: pintada tem roseta com pinta dentro, parda não tem mancha nenhuma — isso sozinho já separa as duas na quase totalidade dos casos. Segundo, a silhueta e as proporções: a onça-pintada é atarracada, de cabeça grande, peito profundo e pernas curtas para o corpo; a onça-parda é atlética, de cabeça pequena, pernas longas e cauda muito comprida. Mesmo no escuro, essas proporções costumam sobreviver na imagem quando as manchas não ajudam. Terceiro, o rastro — que é o assunto da próxima seção, e que muitas vezes está ali no barro logo abaixo da câmera.
E a jaguatirica no meio disso? Aqui o tamanho ajuda, mas com uma ressalva. A jaguatirica é claramente menor que as duas onças, então numa foto com referência de escala (um tronco, uma pedra, um alvo conhecido) o porte já a separa. Sem escala, porém, uma jaguatirica próxima da lente pode parecer do tamanho de uma onça distante — e aí você volta à pelagem: rosetas grandes e arredondadas com pinta dentro (pintada) versus manchas menores em cadeia (jaguatirica). A câmera que registra data, hora e, de preferência, um objeto de tamanho conhecido no quadro é a que menos deixa você no escuro.

Os felinos menores que não podem virar “jaguatirica”
Depois das três estrelas, vem a armadilha que pega até gente experiente: o Brasil tem outros felinos pequenos e pintados, e a câmera, sobretudo à noite e a distância, achata as diferenças. Chamar tudo de “jaguatirica” superestima uma espécie e apaga as outras — um erro de dados sério para qualquer monitoramento.
O sósia mais traiçoeiro é o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), “considerado o menor felino do Brasil, pesando cerca de 1 a 3 kg”, com “pelagem marcada por rosetas escuras, ou completamente preta nos indivíduos melânicos”. Repare: pelagem pintada “semelhante à da onça-pintada e da jaguatirica”. É a mesma gramática de manchas, só que num bicho do tamanho de um gato doméstico magro. A distância, sem escala, um gato-do-mato pode facilmente ser tomado por uma jaguatirica jovem. Complica ainda mais o fato de que “gato-do-mato” abrange mais de uma espécie: o L. guttulus (sul e sudeste) foi por muito tempo tratado como subespécie do Leopardus tigrinus (norte e nordeste), até que análises genéticas os reconheceram como espécies distintas. Ou seja, nomear “gato-do-mato” na sua planilha já exige saber a região.
O segundo é o gato-maracajá, o margay (Leopardus wiedii), que se confunde com uma jaguatirica pequena. O traço que o entrega é a cauda desproporcional: é “uma das mais arborícolas de todos os felinos”, com “caudas longas que podem representar até 40% do seu corpo” e “tornozelos que giram até 180°” para descer troncos de cabeça para baixo. Some a isso “olhos bem grandes e destacados, focinho saliente, patas grandes e cauda mais longa do que todo o seu corpo”. Na câmera: se o felino pintado tem uma cauda que parece grande demais para o corpo e olhos enormes, pense em margay antes de jaguatirica.
O terceiro é o coringa, porque não é pintado: o gato-mourisco ou jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi). Ele tem “pelagem de vermelho à cinza escura” — uniforme, sem manchas — e é “apenas um pouco maior que um gato doméstico”, sendo, geneticamente, o parente mais próximo da própria onça-parda. É a receita perfeita para um engano ao contrário: um felino liso e escuro, de corpo alongado, que alguém pode confundir com uma onça-parda jovem — quando é um bicho de poucos quilos. O tamanho, de novo, é o árbitro; e um detalhe de comportamento ajuda a filtrar as fotos, porque o gato-mourisco é “predominantemente diurno”, ao contrário dos felinos pintados menores.
Chamar todo felino pintado pequeno de “jaguatirica” infla uma espécie e apaga o gato-do-mato, o margay e o gato-mourisco.
O rastro: felino não marca as unhas

Muitas vezes o bicho passou e a foto não ficou boa — mas ele deixou a pegada no barro, e o rastro conta o resto. A boa notícia é que existe uma regra quase universal para separar felino de cão, e ela é fácil de checar.
Em felinos — onça-pintada, onça-parda, jaguatirica —, as garras são retráteis e ficam recolhidas ao caminhar, então não marcam no chão. Nos canídeos, não: a garra é fixa e imprime. O estudo mais rigoroso sobre isso, feito com 167 rastros de pumas, onças-pintadas, cães grandes e lobos-guará, quantificou a diferença: as marcas de garra estavam ausentes em 93,5% dos rastros de onça-parda e onça-pintada, enquanto 97% dos rastros de cão as apresentavam. Então a primeira pergunta diante de uma pegada é simples: vejo marca de unha à frente dos dedos? Se vejo, provavelmente é cão (ou lobo-guará); se não vejo, provavelmente é felino.
“Provavelmente” é a palavra-chave, porque o próprio estudo derruba o excesso de confiança. Os métodos tradicionais de identificação de rastro — as chaves qualitativas que muita gente aprende — se saíram mal: a maioria deles classificou errado mais de 20% dos rastros, e mesmo voluntários experientes variaram muito na acurácia. Só quando os autores usaram medidas quantitativas de quatro características — presença ou ausência de marca de garra; formato da frente da almofada plantar; formato da base da almofada; e formato dos dedos internos — o erro caiu para menos de 10%. A lição para o campo é honesta: a marca de garra é um ótimo primeiro filtro, mas não um veredito; para separar onça-pintada de onça-parda no rastro, é o conjunto de características que conta, não um traço só.
E como separar as duas onças no barro? O guia do Pantanal descreve bem: “a pegada da onça-pintada, geralmente maior que a da parda, tem os dedos arredondados, com a largura total um pouco maior que o comprimento”, enquanto “o rastro da onça-parda é mais comprido do que largo e os dedos tendem a ser pontudos (parecido com o rastro do cachorro doméstico, porém sem marcar as unhas)”, com a almofada palmar exibindo lóbulos na parte traseira. Repare como isso reforça a regra: a pegada da suçuarana parece de cão pelo formato alongado — mas a ausência de unha a devolve para o time dos felinos.
Uma técnica prática, quando a foto não basta e você quer registrar o rastro: fazer um molde de gesso da pegada nítida, uma cartolina em volta formando um cilindro e o gesso derramado dentro — o guia do Pantanal traz o passo a passo. É uma forma barata de guardar a evidência para conferir com calma depois.
Já os outros vestígios — fezes, pelos — merecem cautela redobrada. Um material felino existe e pode indicar presença, mas a identificação da espécie a partir dele é escorregadia: comparando morfologia de pelo com métodos moleculares para felinos neotropicais, os pesquisadores mostraram que só o pelo, a olho, não é confiável para dizer qual felino era — o DNA resolve, a lupa não. E a chave prática de identificação de fezes começa com um alerta que vale para qualquer um: “a identificação de fezes… pode ser uma tarefa difícil porque as fezes mudam conforme a dieta do animal”, além do cuidado sanitário ao manuseá-las. Ou seja: rastro e fezes ajudam a confirmar que um felino passou; para dizer qual felino, a câmera continua sendo a testemunha mais confiável.

Identificar o indivíduo pela roseta — e por que o puma foge à regra
Aqui está o que torna a onça-pintada e a jaguatirica tão especiais para o monitoramento por câmera: o padrão de manchas de cada bicho é único, como uma impressão digital, e não muda ao longo da vida. Isso permite não só saber que “há onça na área”, mas contar quantos indivíduos diferentes existem — a espinha dorsal da técnica de captura-recaptura, que sustenta as estimativas de densidade e de tamanho populacional.
Na prática, foto-identifica-se cada animal comparando o desenho das rosetas (ou o “manto” da jaguatirica) entre registros. Como o volume de imagens explode num censo, os pesquisadores recorrem a softwares de reconhecimento de padrões. Um estudo comparou dois deles em 359 fotos de onça-pintada e 332 de jaguatirica capturadas em Belize: o HotSpotter acertou a correspondência como primeira opção em 71–82% das vezes, e o Wild-ID em 58–73%, com melhor desempenho em imagens de boa qualidade. A ressalva, que o mesmo estudo faz questão de sublinhar, é que “ainda é necessária a participação humana para confirmar as correspondências” — o software acelera, mas quem bate o martelo é o olho treinado. É por isso que a qualidade da foto importa tanto: um flanco bem iluminado e de lado vale ouro; um vulto tremido, quase nada.
E a onça-parda? Aqui a natureza prega uma peça no método. Como a suçuarana não tem manchas, ela simplesmente não pode ser individualizada pelo pelo — e isso é, nas palavras dos pesquisadores, “controverso” justamente porque a captura-recaptura por foto “geralmente se limita a espécies com padrões de pelagem conspícuos, como listras ou pintas”. Sem esse padrão, como recontar pumas? A saída tem sido criativa: um estudo testou identificar cada onça-parda pelo rosto, usando um acessório de câmera com luz e som para atrair o olhar do bicho e conseguir uma foto frontal; a concordância entre avaliadores foi de moderada a boa (kappa de Fleiss = 0,54), quase 93% melhor que os métodos convencionais de câmera. Outras abordagens usam cicatrizes, marcas individuais e coleiras com telemetria. A mensagem para o seu monitoramento: onça-pintada e jaguatirica você reconta pela pelagem; onça-parda, não — para ela, o desenho populacional exige outros recursos, e é bom saber disso antes de prometer um número de pumas a partir de fotos.
Esse trabalho não é teórico. No Parque Nacional do Iguaçu, o Projeto Onças do Iguaçu — parceria do Instituto Pró-Carnívoros com o ICMBio e o Proyecto Yaguareté, da Argentina — conduz censos bianuais por armadilha fotográfica, catalogando cada onça-pintada pelo padrão de rosetas. É “um dos maiores esforços mundiais de monitoramento de onças”, com “cerca de 600.000 hectares amostrados, já há 12 anos”. E os números que saíram dessas fotos contam uma história de recuperação: “entre 2009 a 2020 a população estimada de onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu passou de 11 para 24 animais”, e no Corredor Verde entre Brasil e Argentina a estimativa chegou a cerca de 90 indivíduos — “cerca de um terço de todas as onças-pintadas estimadas para o bioma Mata Atlântica”. Cada um desses animais foi reconhecido, individualmente, pela sua roseta.
A roseta identifica cada onça-pintada como uma impressão digital — mas a onça-parda, sem manchas, obriga a recontar de outro jeito.
Como montar o armadilhamento fotográfico

A câmera de fauna venceu como método de estudo de felinos por um motivo simples: esses bichos são elusivos e discretos, e a observação direta quase não os alcança. A câmera é não invasiva e trabalha 24 horas, capturando quem passa, a que hora e — pela pelagem — qual indivíduo. Mas há diferença entre pendurar uma câmera numa árvore e montar um esquema que gere dados confiáveis, e a literatura de grandes felinos é bem clara sobre onde as pessoas erram.
O primeiro princípio é o espaçamento entre câmeras, e ele nasce da biologia do bicho. Como a identificação depende de recapturar o mesmo indivíduo em câmeras diferentes, elas não podem estar tão afastadas a ponto de uma área de vida inteira caber no vão entre duas. A prática consagrada para onça-pintada é espaçar as câmeras a cerca de 2 a 3 km, uma distância ligada ao tamanho mínimo da área de vida de uma fêmea — historicamente estimado em torno de 10 km² — de modo que a malha “enxergue” cada território. O segundo princípio é o tamanho da área amostrada: a revisão de referência recomenda que a área do estudo seja três a quatro vezes a área de vida média da espécie. E o alerta que dá nome ao trabalho é o mais importante: quando o polígono de câmeras é menor do que aproximadamente uma área de vida, as estimativas ficam fortemente enviesadas — e boa parte dos estudos publicados de densidade de onça, segundo essa mesma revisão, não cumpria os requisitos mínimos de desenho. Em outras palavras: uma malha pequena demais não subestima nem superestima por acaso; ela mente de forma sistemática.
Para a onça-parda, o desafio metodológico é ainda maior, porque a falta de manchas impede a foto-identificação clássica. As soluções passam por desenhos agrupados de amostragem combinados com telemetria (coleiras) e modelos de marca-reavistamento espacial: um estudo cobriu mais de 15.000 km² assim, e integrar os dados de coleira aos das câmeras “melhorou substancialmente” as estimativas de densidade. Não é o tipo de coisa que um proprietário monta sozinho — mas é bom entender por que um censo de onça-parda é mais complexo (e mais caro) que um de onça-pintada.
A jaguatirica, por ser pintada, volta a se comportar bem com a câmera. Na Reserva Amanã, na Amazônia Central, três temporadas de armadilhamento na estação seca — um esforço total de 7.020 armadilhas-dia que rendeu 93 registros independentes — permitiram estimar a densidade por captura-recaptura espacial em 24,84 ± 6,27 jaguatiricas por 100 km², a primeira estimativa do tipo para a Amazônia brasileira. É um bom retrato do que a técnica entrega quando o desenho está correto: um número com margem de erro explícita, e não um chute.
Onde apontar as câmeras? Nos corredores que os felinos de fato usam — trilhas, aceiros, margens de rios, passagens naturais no meio da mata densa. E vale casar o esforço bianual de censo com um monitoramento contínuo entre as campanhas, como faz o projeto do Iguaçu, que além dos censos “monitora continuamente a fauna do parque”, acompanhando a atividade das onças e registrando toda a comunidade — de queixadas e quatis a jaguatiricas, gatos-mouriscos e onças-pardas na mesma grade. É esse acompanhamento no tempo que transforma fotos avulsas em uma série de dados.

Quando eles se movem: leia a atividade pela espécie
Uma vez que você sabe quem está na câmera, o quando vira informação — e o horário de atividade, além de ajudar a interpretar os registros, é mais um traço que ajuda a separar as espécies.
Os felinos maiores tendem ao noturno e ao crepuscular, mas com nuance. Um estudo com 3.656 registros de onça-pintada ao longo de dois anos e meio de câmera, na Venezuela, mediu os bichos ativos em média 11,7 horas por dia, num padrão “principalmente noturno e crepuscular” — mas com variação marcante conforme sexo, idade e estado reprodutivo: as fêmeas reprodutivas foram as mais ativas (13,2 h/dia), seguidas de machos adultos (10,9 h), fêmeas não reprodutivas (10,5 h) e filhotes (8,7 h), com picos logo após o pôr do sol e antes do amanhecer. Ou seja, “onça é noturna” é uma boa primeira aproximação, mas o horário exato dos seus registros depende de quem é o animal.
O quadro mais útil, porém, vem de um estudo que olhou a comunidade inteira de predadores de uma vez, na Costa Rica, e que praticamente entrega uma chave de identificação por horário: “**os menores felinos do gênero Leopardus (jaguatirica, gato-maracajá, gato-do-mato) foram principalmente noturnos, os maiores felinos (onça-pintada e onça-parda) foram catemerais, e o menor gato-mourisco… foi majoritariamente diurno**”. Catemeral quer dizer ativo tanto de dia quanto de noite, sem um pico rígido. Junte isso ao que já vimos: um felino pintado registrado às três da manhã tem mais cara de jaguatirica ou gato-do-mato; um felino liso registrado ao meio-dia tem mais cara de gato-mourisco do que de onça-parda. O horário não identifica sozinho — mas, somado à pelagem e ao porte, reduz o campo de suspeitos.
Esse estudo ainda oferece uma explicação elegante para por que cada bicho se move quando se move: a conclusão foi que “a disponibilidade de presa é mais importante que a competição” para definir o padrão de atividade. Os felinos seguem a comida. Para quem monitora um ponto ao longo do tempo, isso é um convite a cruzar cada foto de felino com a hora e com o que mais aparece na câmera — as presas — em vez de tratar o horário como uma constante da espécie.
O horário não identifica sozinho, mas o pintado às três da manhã tem cara de jaguatirica, e o liso ao meio-dia, de gato-mourisco.
Conservação e monitoramento: por que esses dados importam


Ler os felinos na câmera não é só um exercício de identificação; alimenta diretamente a conservação, e o Brasil tem um arcabouço robusto por trás disso. Vale, porém, um cuidado de leitura: status de conservação muda com o tempo, então cada número abaixo vem com a sua data.
No panorama global, a onça-pintada é classificada como Quase Ameaçada pela Lista Vermelha da IUCN (avaliação de 2016), com população em declínio e severamente fragmentada. A onça-parda e a jaguatirica aparecem como Menos Preocupante (avaliações de 2014), ambas também com tendência populacional de queda. Mas a régua nacional conta uma história mais fina — e, para a onça-parda, mais dura. No Brasil, o CENAP/ICMBio estima a população efetiva de onça-pintada em menos de 10.000 indivíduos, com um declínio de cerca de 30% em 27 anos, e registra que a espécie ocorre em quase todos os biomas exceto o Pampa. A onça-parda, com população efetiva estimada em cerca de 4.000 indivíduos no país, é classificada como Vulnerável no Brasil — mais preocupante que o “menos preocupante” global, um descompasso que importa quem relata dados. Já a jaguatirica, com população efetiva superior a 40.000 indivíduos e “a espécie de felino mais abundante” na maioria das áreas, é Menos Preocupante também nacionalmente. Três felinos, três situações distintas — e é o monitoramento por câmera que mantém esses números vivos e revisáveis.
Esse monitoramento é institucional. O Plano de Ação Nacional (PAN) para a conservação da onça-pintada, do ICMBio, avalia o estado da espécie bioma a bioma — Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal — e inscreve o monitoramento populacional entre suas ações. Projetos de campo como o do Iguaçu põem isso em prática, e a série histórica de rosetas catalogadas ali é o que permite dizer, com base em evidência, que aquela população de onça-pintada cresceu de 11 para 24 animais em uma década. Cada foto bem identificada — a espécie certa, o indivíduo certo — é um tijolo nesse edifício.
Fica então a razão de ser deste artigo. Uma câmera cheia de “felinos não identificados” é ruído; uma câmera cujas fotos você sabe separar em onça-pintada, onça-parda, jaguatirica e os pequenos gatos vira dado — e dado é o que sustenta a conservação de bichos que, no chão, você quase nunca vê. Aprender a ler a pelagem, o rastro e o horário é, no fim, aprender a transformar imagem em conhecimento.
Perguntas frequentes
Como diferencio onça-pintada de onça-parda na foto da câmera?
Pela pelagem, antes de tudo: a onça-pintada tem rosetas com uma ou duas pintas dentro do anel; a onça-parda adulta é uniforme, sem mancha nenhuma. Confirme pela silhueta — a pintada é atarracada e de cabeça larga, a parda é esguia e de cauda longa. Não use o tamanho, porque onde as duas convivem uma fêmea de pintada e um macho de parda podem ter quase a mesma massa.
O leopardo pode aparecer na minha câmera na América Latina?
Não. O leopardo é uma espécie do Velho Mundo (África e Ásia) e não ocorre nas Américas. A confusão é comum porque as rosetas se parecem — mas as do leopardo são vazias por dentro, enquanto as da onça-pintada têm pintas internas. Roseta com pinta dentro, em câmera neotropical, é onça-pintada.
Todo felino pintado pequeno é jaguatirica?
Não, e tratá-lo assim distorce os dados. O gato-do-mato-pequeno (1 a 3 kg) e o gato-maracajá (margay) também são pintados e podem passar por jaguatirica a distância. O margay se entrega pela cauda enorme (até 40% do corpo) e pelos olhos grandes; o gato-do-mato, pelo tamanho diminuto. Use uma referência de escala no quadro sempre que puder.
Dá para saber se a marca no barro é de felino ou de cão?
Na maioria das vezes, sim: felinos recolhem as garras e não marcam as unhas, enquanto cães deixam a marca. Num estudo, a garra estava ausente em 93,5% dos rastros de onça e presente em 97% dos de cão. Mas não é infalível — os métodos tradicionais erram mais de 20% —, então olhe o conjunto (marca de garra, almofada, dedos), não um traço só.
Por que não consigo identificar cada onça-parda individualmente como faço com a onça-pintada?
Porque a onça-parda não tem manchas, e a identificação individual por foto depende de um padrão único de pelagem — rosetas na pintada, manchas na jaguatirica. Sem esse padrão, os pesquisadores recorrem a rosto, cicatrizes e coleiras com telemetria para recontar pumas, o que torna um censo de onça-parda mais complexo.
A que distância devo espaçar as câmeras para um censo de onça?
Para onça-pintada, a prática consagrada é cerca de 2 a 3 km entre câmeras, ligada ao tamanho da área de vida, e cobrir uma área total de três a quatro vezes a área de vida média da espécie. Malhas menores que isso enviesam a estimativa de forma sistemática. Aponte as câmeras para trilhas, aceiros e passagens naturais.