trail.cam

Quati, gambá, mão-pelada ou irara: como separar os mamíferos de médio porte na câmera de fauna

Quati de focinho comprido e cauda anelada erguida como um mastro caminhando de dia por uma trilha de floresta neotropical

Quem monta câmera de fauna no Neotrópico conhece a cena: um vulto de porte médio cruza a trilha às três da manhã, a foto sai contrastada demais no infravermelho, e no dia seguinte você fica olhando para a tela sem certeza se aquilo era um gambá grande, um mão-pelada ou algum bicho de rabo comprido que passou correndo. Não é falta de atenção. É que quatro animais muito diferentes — quati, gambá, mão-pelada e irara — ocupam essa mesma faixa de tamanho, saem nos mesmos lugares e, numa foto ruim, se parecem o bastante para enganar até quem trabalha com isso. Um estudo metodológico sobre armadilhas fotográficas é direto quanto a esse risco: as taxas de erro de identificação “podem ser altas, especialmente quando espécies morfologicamente semelhantes ocorrem juntas”, e “mesmo especialistas nem sempre identificam corretamente as espécies a partir de fotografias” nesses casos.

A boa notícia é que esses quatro não são realmente parecidos quando você sabe onde olhar. Eles pertencem a três famílias distintas, têm focinhos, caudas, marchas e horários que os separam de forma clara — e a câmera, por mais que borre a cor, registra justamente as pistas que importam: a silhueta, a forma da cauda, o jeito de andar e, de graça em cada quadro, a hora. Este texto é um guia de campo para ler essas pistas. O foco é a fauna neotropical, sobretudo o Brasil, onde os quatro convivem; para o leitor de língua portuguesa em Portugal ou na África lusófona vale um aviso desde já — o quati, o gambá-Didelphis, o mão-pelada e a irara são bichos exclusivamente americanos e não ocorrem na Europa nem na África. Os primos europeus mais próximos da irara são os mustelídeos ibéricos (fuinha, marta, toirão), mas são outras espécies; a lógica de leitura, essa sim, serve a qualquer um.

Numa foto noturna e granulada, quati, gambá, mão-pelada e irara viram o mesmo vulto. A diferença está no focinho, na cauda, na marcha e na hora — e a câmera registra os quatro.

Quem é quem: quatro bichos, três famílias

Antes de comparar detalhes, vale fixar o elenco, porque metade da confusão vem de tratar os quatro como “bichos parecidos” quando na verdade são parentes distantes com anatomias distintas.

O quati (Nasua nasua) e o mão-pelada (Procyon cancrivorus) são procionídeos — a mesma família dos guaxinins norte-americanos, exclusiva das Américas. São os dois que mais se confundem entre si, e por bom motivo: dividem o tamanho, a família e boa parte do território. O quati mede de 70 a 120 cm de comprimento total e pesa de 3 a 6 kg; o mão-pelada vai de 60 a 100 cm e pesa de 2 a 12 kg — uma faixa de peso larga, porque a espécie varia muito. O nome “mão-pelada” vem dos pés: dedos longos e quase sem pelo, que o bicho usa como mãos, à moda de macaco, para apalpar e lavar o alimento na água.

A irara (Eira barbara) é um mustelídeo — parente das martas, dos furões e, mais de longe, do texugo e do carcaju. Tem o corpo esguio e alongado típico da família, mede de 90 a 120 cm no total e pesa de 4 a 5 kg. Apesar do tamanho respeitável, a silhueta é inconfundível: baixa, comprida, com o dorso levemente arqueado e uma cauda longa e peluda.

O gambá é o único marsupial do grupo — e, na verdade, são duas espécies quase idênticas: o gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita) e o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris). São bem menores que os outros três: o corpo (sem a cauda) mede de 30 a 44 cm, e o peso vai de 500 g a menos de 3 kg. Como marsupiais, carregam os filhotes no marsúpio por cerca de quatro meses e depois no dorso — um detalhe que a câmera às vezes flagra e que, sozinho, já identifica o grupo.

Guarde esse mapa: dois procionídeos (quati, mão-pelada), um mustelídeo (irara), um marsupial (gambá, em duas espécies). Quase toda pista de campo que vem a seguir reforça essa divisão.

A cauda: a pista que a câmera nunca perde

Se você só puder olhar uma coisa numa foto noturna, olhe a cauda. Ela é longa nos quatro, mas de quatro jeitos diferentes — e o infravermelho, que apaga a cor, preserva a forma e o modo como o bicho a carrega.

O quati tem a assinatura mais fácil. A cauda “apresenta o tamanho do corpo do animal e é mantida de forma ereta enquanto o Quati anda”. É aquele rabo empinado, quase vertical, feito mastro — usado como bandeira de comunicação visual dentro do bando. Some a isso os anéis claros sobre fundo escuro, e você tem um animal que, mesmo de costas, se identifica pela cauda levantada e listrada.

O mão-pelada também tem cauda anelada, com “anéis de pelos intercalados de faixas pretas”, mas a carrega de outro jeito: baixa, e com um detalhe que os guias tratam como característica-chave da espécie — ela é encaracolada (“curly tail”), junto com a máscara escura, “as principais características da espécie”. Cauda anelada mais para baixo, com aspecto encaracolado, num bicho de máscara: mão-pelada. Cauda anelada empinada como mastro, num bicho de focinho comprido: quati. É a diferença mais confiável entre os dois procionídeos.

A irara tem a cauda longa e peluda, mas sem anéis — de coloração uniforme, geralmente escura como o corpo. Num animal baixo e comprido, uma cauda cheia e monocromática, sem o listrado dos procionídeos, aponta para a irara.

O gambá tem a cauda mais distinta de todas, e paradoxalmente a que menos se parece com uma cauda de mamífero “peludo”: ela é longa, pelada e escamosa, preênsil, funcionando “como um quinto membro”. Na maioria das espécies de marsupial é maior que o corpo e a cabeça juntos. Esse rabo nu, de aspecto quase de réptil, é o que mais aproxima o gambá de um rato grande na cabeça de quem não conhece — e é justamente o que, olhado com calma, o separa de todo o resto. (Uma ressalva de medição: as fichas da Fauna Digital RS descrevem a cauda do gambá como um pouco menor que a cabeça mais o corpo, enquanto outras fontes dão a cauda como mais longa que o corpo sozinho — a diferença é o que se mede contra o quê; de qualquer modo, é uma cauda longa, nua e escamosa, e é isso que importa na foto.)

Cauda empinada e anelada é quati; anelada e encaracolada num bicho mascarado é mão-pelada; longa e peluda sem anéis é irara; longa, nua e escamosa é gambá.

O focinho e a cara: onde a confusão quati × mão-pelada se resolve

Mão-pelada de máscara escura ao redor dos olhos e cauda anelada e encaracolada, forrageando à noite perto da água

A dúvida mais comum, de longe, é entre quati e mão-pelada — mesma família, mesmo tamanho, ambos com cauda anelada. Um explicador brasileiro voltado exatamente para essa confusão coloca a chave onde ela realmente está: “o focinho é a principal diferença visível”. E ele tem razão.

O quati tem um focinho fino e alongado, com a ponta flexível — um verdadeiro instrumento de forrageio, que o bicho enfia em frestas, troncos podres e serapilheira atrás de invertebrados. É um focinho de tamanduá em miniatura, comprido e móvel, impossível de confundir de perto. O mão-pelada tem o focinho curto e pontudo, e, sobretudo, uma máscara de pelos escuros ao redor dos olhos — a mesma máscara de bandido dos guaxinins de desenho animado. Máscara facial marcante = mão-pelada; nariz comprido e afiado = quati. Numa foto frontal, essa é a decisão de um segundo.

Uma organização ambiental de Minas Gerais resume o contraste inteiro num parágrafo que vale como chave de campo: “Fisicamente, o mão-pelada se assemelha ao quati, no entanto, há diferenças: os quatis geralmente possuem pelagem mais clara, nariz afinado e rabo empinado. Além disso, eles possuem hábitos diurnos e são mais serelepes, ao contrário do mão-pelada, que é tímido e mais ativo durante a noite”. Está tudo ali: cor, focinho, cauda, temperamento e horário.

A irara não tem focinho de procionídeo nenhum: tem cara de mustelídeo — cabeça arredondada, orelhas curtas e arredondadas, cara de fuinha grande. E o gambá tem o focinho pontudo e claro de marsupial, com orelhas grandes, nuas e sem pelo, além de manchas escuras ao redor dos olhos e uma listra vertical escura entre eles. Orelha grande e pelada num bicho de rabo escamoso é gambá; nenhum dos outros três tem essa combinação.

Gambá de orelhas grandes e nuas, focinho claro e pontudo e cauda longa, pelada e escamosa enrolada em um galho à noite

A marcha: por que eles se movem diferente

A câmera não capta só a foto parada; muitas vezes registra o bicho em movimento, ou uma sequência de quadros. E o jeito de andar de cada um tem base anatômica — o que faz da marcha uma pista mais confiável do que parece.

Um estudo comparou a anatomia dos membros dianteiros do quati e do mão-pelada e encontrou desenhos evolutivos opostos: “**o Procyon [mão-pelada] tem membros torácicos longos, adaptados à locomoção semidigitígrada e cursorial, enquanto o Nasua [quati] tem membros torácicos curtos, adaptados à locomoção plantígrada com garras longas”. Traduzindo para o que se vê na trilha: o mão-pelada tem pernas relativamente longas e anda de modo mais “corrido”, apoiando-se mais nos dedos; o quati tem pernas curtas, planta a mão inteira no chão (plantígrado) e usa as garras longas principalmente para cavar e rasgar troncos podres** atrás de comida. Aquele mesmo estudo aponta que o quati “usa as mãos sobretudo para escavar (habilidades fossoriais)”, enquanto o mão-pelada, com um tato apuradíssimo nas mãos, as usa “para localizar e manipular presas animais” e lavar o alimento. Ou seja: escavação e revolvimento de serapilheira num bicho de dia sugerem quati; manipulação de comida à beira d’água, de noite, sugere mão-pelada.

A irara desliza. Corpo baixo e comprido, dorso levemente arqueado, pernas curtas — a locomoção fluida e contínua de um mustelídeo, boa nadadora, corredora e trepadora. O gambá tem a marcha mais desajeitada do grupo: um bamboleio lento de marsupial, com aquela cauda nua arrastando, e sobe em árvore com facilidade graças ao hálux oponível e sem garra da pata traseira — um “polegar” que agarra galhos. Num vídeo curto de câmera, um bicho que bamboleia devagar e trepa desajeitado é quase sempre gambá; um que corre baixo e ligeiro é irara.

Irara de corpo esguio e escuro com a cabeça e a nuca claras, deslizando por uma trilha de floresta durante o dia

As pegadas: o que o barro conta (e o que ele não conta)

Quando o solo colabora — úmido, argiloso, marcável —, a pegada ajuda. Mas aqui é preciso honestidade sobre os limites das fontes, porque nem todos os quatro têm boa cobertura de rastro.

Os dois procionídeos são os mais documentados. O guia de pegadas da USP, herdeiro do clássico manual de campo brasileiro, dedica uma seção à família Procyonidae justamente ao quati e ao guaxinim (mão-pelada), mostrando as duas pegadas lado a lado. Ambos deixam marcas de cinco dedos com garras, de aspecto “de mãozinha”, coerente com o uso manual que fazem das patas dianteiras. O mesmo guia faz uma ressalva que todo rastreador deveria colar na parede: “em campo, as pegadas não se apresentam tão nítidas” como no papel, e frequentemente se sobrepõem. Pegada dianteira e traseira se pisam, o solo seco não marca, a chuva apaga.

O gambá tem uma pegada de leitura própria e reveladora. A pata dianteira do marsupial espalha os dedos “no formato de uma estrela”, bem diferente dos dedos juntos de um roedor, e todos os dedos da frente têm garra. Já a pata traseira mostra cinco dedos, um deles oponível e desprovido de garra — o tal “polegar” de agarrar galho. Essa combinação (dianteira em estrela com garras, traseira com um dedão sem unha e oponível) é diagnóstica de gambá e o separa na hora do rato, com quem mais se confunde. A dentição confirma: o marsupial tem dentição “semelhante à de um cão” — incisivos, caninos, pré-molares e molares —, sem os grandes incisivos serrados dos roedores, e mostra “muitos dentes finos como agulhas” quando ameaçado.

A irara é o buraco de cobertura deste guia: não há, nas fontes reunidas, uma prancha de pegada dedicada à irara. Por isso, para a irara, confie na silhueta, na cor e na marcha — corpo esguio, cabeça clara, cauda peluda uniforme, deslize de mustelídeo — e não numa pegada isolada, que pode ser confundida com a de um cão ou de outro carnívoro. Quando a pegada aparecer, trate-a como confirmação de algo que a foto já sugeriu, nunca como prova única.

No campo, a pegada raramente vem nítida. Ela confirma o que a silhueta, a cauda e o horário já apontaram — não decide sozinha.

O horário: a pista de graça no carimbo da foto

Esta talvez seja a informação mais subestimada de todas, e a câmera a entrega sem custo, gravada em cada quadro. Dois dos quatro são diurnos; dois são noturnos. Só isso já parte o problema ao meio.

O quati é diurno e social — ativo de dia, andando em bandos de 4 a 20 indivíduos (fêmeas e machos jovens), que podem passar de 30. A irara também é diurna, solitária, com picos de atividade “no início da manhã e no fim da tarde”. Já o mão-pelada é noturno e solitário, e o gambá, nas duas espécies, é noturno e solitário. A regra prática é poderosa: um bicho de porte médio flagrado às duas da manhã dificilmente é quati ou irara; um flagrado ao meio-dia dificilmente é mão-pelada ou gambá.

Um estudo no extremo sul da Mata Atlântica pôs números nesse contraste, comparando quati e mão-pelada com 7.541 câmeras/noite de esforço: os 117 registros de quati foram “significativamente diurnos” e os 70 de mão-pelada, “significativamente noturnos”. Mas o mesmo trabalho traz um alerta importante para não fazer do horário uma regra cega: “curiosamente, o quati, em uma área fora de unidades de conservação, apresentou uma maior frequência de atividade noturna”. Ou seja, perto de gente e em áreas degradadas, o quati pode empurrar parte de sua atividade para a noite, provavelmente para evitar o contato humano. O horário é uma pista forte, não um veredito — some-o sempre à silhueta e à cauda.

Há uma lógica ecológica elegante por trás dos horários. Na Pantanal, um estudo de partição de nicho mediu a sobreposição de atividade entre quatro carnívoros de médio porte e achou o maior valor (87%) entre a jaguatirica e o mão-pelada — os dois noturnos — e o menor (25%) entre a jaguatirica e o quati — porque o quati, diurno, simplesmente não está ativo quando a jaguatirica está. O quati parece evitar ativamente o encontro com grandes felinos, dos quais é presa; o mão-pelada, não. Para quem monta câmera, isso significa que a comunidade que aparece de dia (quati, irara) e a que aparece de noite (mão-pelada, gambá, mais os felinos) são quase dois elencos separados no mesmo palco.

Dois desses bichos saem de dia e dois de noite: o carimbo de hora da foto, sozinho, já elimina metade das opções.

Cor e porte: separando os pares que sobram

Comparação lado a lado da cauda anelada e empinada do quati e da cauda anelada e encaracolada do mão-pelada

Com focinho, cauda, marcha e horário, a maioria dos registros já se resolve. Cor e tamanho fecham os casos que restam — especialmente dentro de cada par que ainda pode confundir.

Entre os dois procionídeos, a cor ajuda: o quati é mais claro, “amarelo a marrom escuro no dorso, com o ventre sempre mais claro”, tons de amarelo-acinzentado; o mão-pelada é escuro, “acinzentado, quase preto”, de pelo denso e curto. Bicho claro e esguio de dia: quati. Bicho escuro e atarracado de noite, perto d’água: mão-pelada.

A irara tem um padrão de cor que, quando visível, é quase uma etiqueta: corpo marrom escuro a preto com a cabeça e a nuca claras, bege ou acinzentadas, e muitas vezes uma mancha bege ou alaranjada na garganta, como um “babador”. Esse contraste corpo-escuro/cabeça-clara não existe em nenhum dos outros três. Vale um aviso: a cor da irara é muito variável — há indivíduos “totalmente marrom escuros até totalmente bege amarelados” —, e o porte também engana, porque os machos adultos são nitidamente maiores e mais robustos que as fêmeas, que “rapidamente” ficam para trás em tamanho a partir da fase subadulta. Uma irara pequena e uma grande na mesma área podem ser fêmea e macho, não espécies diferentes.

E o par mais sutil de todos: os dois gambás. São “muito semelhantes… com exceção da cor da orelha, que os distingue”. O gambá-de-orelha-preta (D. aurita) tem a orelha inteiramente preta e nua — daí o nome. O gambá-de-orelha-branca (D. albiventris) tem a orelha de base preta e o restante branco, mais três listras pretas na cabeça (uma central e duas sobre os olhos). Fora a orelha, a distinção é territorial: as duas espécies são, em geral, alopátricas — vivem em áreas separadas —, encontrando-se sobretudo na floresta com araucária do sul do Brasil. O D. aurita é um especialista de mata (Mata Atlântica, corpo de 670 g a 1,8 kg); o D. albiventris é generalista, mais ligado a Cerrado, Caatinga e Pampa, e um pouco maior (500 g a 2,75 kg). Curiosamente, onde os dois se encontram, o especialista de mata tende a excluir o generalista por competição. Na prática de campo: se você está na Mata Atlântica costeira, o gambá provavelmente é orelha-preta; se está no Cerrado ou na Caatinga, provavelmente é orelha-branca — mas confirme pela orelha, porque a regra tem exceções.

Pegada dianteira de gambá com os dedos abertos em forma de estrela, todos com marca de garra, na lama úmida

Por que a câmera é a ferramenta certa — e onde ela falha

Tudo o que torna esses quatro difíceis de observar a olho nu — os hábitos noturnos de dois deles, a discrição de todos — é o que a armadilha fotográfica resolve. Ela trabalha 24 horas, não se cansa e não espanta o bicho. Não à toa, é o método padrão para levantar a mastofauna de médio e grande porte no Brasil: um levantamento na Serra da Mantiqueira, com oito câmeras entre 2013 e 2016, registrou 27 táxons, incluindo os quatro deste guia; outro, na maior floresta urbana do mundo, no Rio de Janeiro, usou 19 câmeras e 2.683 armadilhas-dia.

Mas a câmera tem dois limites que este guia inteiro tenta contornar. O primeiro é a qualidade da imagem. À noite, no infravermelho, a cor some e o contraste estoura; de dia, o bicho passa depressa e sai borrado. Por isso a decisão de espécie raramente deve descansar num único quadro. A boa notícia é que a câmera quase sempre dispara em rajada — numa referência metodológica, cada visita de um animal rendeu, em média, 10,6 fotografias, e só 7,2% das visitas resultaram numa única foto. Use a sequência inteira: um quadro mostra a cauda, outro o focinho, outro a marcha. É assim que se sai da dúvida.

O segundo limite é a detecção em si. Alguns desses bichos aparecem pouco, e por razões que valem conhecer. A irara, mesmo comum e amplamente distribuída, é notoriamente difícil de flagrar: num estudo em São Paulo com 57 câmeras sem isca ao longo de 4.923 armadilhas-dia, a irara foi detectada em 44% dos sítios, com o uso do ambiente aumentando junto com a cobertura florestal; num levantamento no Rio de Janeiro, ela sequer foi confirmada por câmera. Cães domésticos soltos parecem afugentá-la de leve, e a presença de cães e gatos domésticos também reduz a frequência de quati e gambá nas áreas onde esses domésticos circulam. A configuração das câmeras nesses estudos dá uma referência útil de instalação: altura em torno de 40 cm do solo, espaçamento mínimo de 250 m entre pontos, e o critério de tratar como um único registro as imagens da mesma espécie na mesma câmera dentro de uma hora. Vale também um ajuste técnico que o estudo do sul da Mata Atlântica destacou: a detecção tanto do quati quanto do mão-pelada caiu com o tempo de disparo lento das câmeras — equipamento com gatilho mais rápido pega esses bichos ágeis que um obturador lento deixa escapar.

O gargalo, no fim, deixa de ser o campo e passa a ser a triagem. Uma temporada de câmeras num fragmento rende milhares de imagens, a maioria de vento, gado ou nada — e a tarefa de achar o quati, o gambá, o mão-pelada e a irara no meio delas, separá-los uns dos outros e ainda ler a data e a hora de cada quadro é justamente o trabalho lento que faz a diferença entre um dado confiável e um palpite.

Câmera de fauna instalada a 40 centímetros do solo, voltada para uma trilha estreita de floresta usada por mesomamíferos

Conservação: por que separar os quatro importa

Distinguir esses animais não é só capricho de caderneta. Cada nome errado distorce o retrato da fauna que a câmera deveria estar ajudando a montar.

A boa notícia é que nenhum dos quatro está, hoje, sob ameaça grave em escala global. O quati é classificado como Pouco Preocupante pela IUCN, embora com tendência populacional de declínio, em avaliação de 2015; as duas espécies de gambá também são Pouco Preocupantes, com populações estáveis; e a irara é Pouco Preocupante na IUCN, ainda que figure como Vulnerável em listas estaduais como a do Rio Grande do Sul. O mão-pelada não consta na lista brasileira de ameaçados, mas aqui cabe uma ressalva honesta: “uma avaliação recente mostrou que a população do mão-pelada pode estar em declínio”, pressionada por fragmentação de habitat, avanço da agropecuária, caça e poluição de cursos d’água — e ele já é um dos mamíferos mais atropelados nas estradas do Pantanal. Justamente por ser um dos carnívoros neotropicais menos estudados, cada registro confiável de mão-pelada tem valor.

Há também um retrato de paisagem que a identificação correta ajuda a pintar. Vários desses bichos são bons indicadores de perturbação ambiental. O quati tolera bem a presença humana e chega a ocupar áreas degradadas onde os grandes felinos já sumiram — usando estradas, aproximando-se de propriedades. A irara e o mão-pelada, ao contrário, dependem mais de cobertura florestal: o uso do ambiente pela irara cresce com a proporção de mata ao redor, e o mão-pelada tem maior chance de aparecer onde ainda há grandes felinos, um proxy de área preservada. Trocar um pelo outro no levantamento embaralha exatamente o sinal que se queria medir. Um paralelo centro-americano reforça o ponto: num corredor biológico da Costa Rica, os primos dessas espécies (irara, quati-de-nariz-branco, guaxinim-do-norte e gambá-comum) mostraram respostas opostas à paisagem — a plantação de abacaxi favoreceu a detecção da irara, enquanto a cobertura florestal reduziu a do quati. São bichos que “leem” o ambiente de formas diferentes; identificá-los certo é ler esse recado.

E há o caso especial do quati como espécie que pode virar problema fora de casa: nativo do continente, ele foi introduzido na ilha Robinson Crusoé, no arquipélago chileno de Juan Fernández, onde não deveria estar. É um lembrete de que “presença de quati” significa coisas muito diferentes conforme o lugar — mais uma razão para que o dado que sai da sua câmera seja preciso.

O fio que costura tudo isso é a leitura correta. Contar uma irara como um mão-pelada, um gambá-de-orelha-branca como um de orelha-preta, ou um quati noturno de área degradada como “outra coisa” — cada erro desses desfoca o retrato da fauna. E o retrato se aprende olhando a cauda, o focinho, a marcha, a cor e o horário, um vulto de cada vez.

Perguntas frequentes

Como diferencio um quati de um mão-pelada na câmera de fauna?

Pelo focinho, pela cauda e pelo horário. O quati tem focinho fino e comprido, cauda anelada mantida empinada como um mastro, pelagem mais clara, e é diurno e social (anda em bando). O mão-pelada tem focinho curto com máscara escura ao redor dos olhos, cauda anelada e encaracolada carregada mais para baixo, pelagem escura quase preta, e é noturno e solitário. Nariz comprido de dia é quati; máscara à noite é mão-pelada.

Qual a diferença entre o gambá-de-orelha-preta e o de orelha-branca?

Basicamente a orelha. O gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita) tem a orelha inteiramente preta e nua; o de orelha-branca (Didelphis albiventris) tem a orelha de base preta e ponta branca, além de três listras escuras na cabeça. Fora isso são quase idênticos, e costumam viver em regiões separadas — o de orelha-preta na Mata Atlântica, o de orelha-branca mais no Cerrado e na Caatinga.

Por que confundem o gambá com um rato grande?

Pela cauda longa e pelada e por saírem à noite perto de casas. Mas o gambá é um marsupial, não um roedor: tem dentição “de cachorro” (com caninos), pata dianteira com os dedos abertos em “estrela” e todos com garra, e um “polegar” oponível e sem unha na pata traseira, que o rato não tem. A cauda escamosa é preênsil e funciona como um quinto membro.

A que horas cada um desses bichos costuma aparecer?

Quati e irara são diurnos; mão-pelada e gambá são noturnos. Então o carimbo de hora da foto já elimina metade das opções: um vulto de porte médio de madrugada quase nunca é quati ou irara. Cuidado com uma exceção: perto de gente e em áreas degradadas, o quati pode empurrar parte de sua atividade para a noite.

Como reconheço uma irara?

Pela silhueta e pela cor. A irara tem corpo baixo, esguio e comprido, com o dorso levemente arqueado e cara de mustelídeo (orelhas curtas e arredondadas), uma cauda longa e peluda sem anéis, e — quando dá para ver a cor — o corpo escuro contrastando com a cabeça e a nuca claras, muitas vezes com uma mancha bege na garganta. É diurna e anda deslizando. Machos são bem maiores que fêmeas.

Vale confiar numa única foto para identificar a espécie?

Não. Mesmo especialistas erram identificando espécies parecidas a partir de fotos de câmera, e a imagem noturna costuma vir sem cor e com muito contraste. A câmera quase sempre dispara em rajada (cerca de 10 fotos por passagem), então use a sequência inteira e some as pistas — cauda, focinho, marcha e horário — antes de anotar a espécie.