Em agosto de 2023, uma equipe montou uma armadilha fotográfica no Parque Estadual do Espinilho, no sudoeste do Rio Grande do Sul, esperando lobo-guará, cervo-do-pantanal, quem sabe um gato-dos-pampas. O que entrou na imagem, desajeitado, foi outra coisa: um focinho longo e uma cauda peluda inconfundíveis — um tamanduá-bandeira, animal que ninguém via com vida naquela região desde 1890. A equipe gritou e chorou. E a identificação, no fim, dependeu de duas características de silhueta que qualquer pessoa que trabalha com câmera de fauna precisa saber ler: o comprimento do focinho e a forma da cauda.
Esse é o ponto de partida deste texto. Na maior parte do Brasil e da América do Sul cisandina, dois tamanduás dividem a paisagem e aparecem na câmera: o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), gigante e terrestre, e o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), médio e trepador. Eles são parentes próximos, comem quase a mesma coisa e ocupam quase os mesmos ambientes — no Pantanal central, um estudo com 2.174 km de transectos concluiu que “os dados não indicam que as duas espécies particionam o hábitat”, com sobreposição de nicho de 0,730. Ou seja: numa mesma fazenda, numa mesma trilha, os dois podem cruzar a mesma câmera. Confundir um com o outro é o erro clássico — e é totalmente evitável, porque as diferenças de campo são grandes e consistentes. Antes de seguir, um aviso de escopo: os tamanduás (família Myrmecophagidae, ordem Pilosa) são um grupo exclusivamente americano. Não ocorrem em Portugal nem na África lusófona; tudo o que segue é neotropical, com o Brasil no centro, ainda que os princípios de leitura sirvam a qualquer leitor de língua portuguesa que trabalhe nas Américas.
A identificação começa na silhueta: o comprimento do focinho e a forma da cauda separam o bandeira do mirim antes de qualquer detalhe.
Dois animais, uma paisagem: por que a confusão acontece
Vale entender por que bandeira e mirim se sobrepõem tanto antes de aprender a separá-los. Os dois são mirmecófagos e termitófagos — especializados em formigas e cupins, que capturam com as garras potentes dos membros anteriores e a língua comprida e pegajosa. Ambos ocorrem em todos os biomas brasileiros e numa ampla variedade de ambientes, de campos abertos a florestas densas. E ambos são de baixa taxa metabólica e temperatura corporal baixa, o que os obriga a modular atividade e uso de hábitat conforme o calor — daí passarem tempo parecido nos mesmos lugares e horários.
A diferença ecológica fina existe, e ajuda a montar a câmera. No Pantanal, o tamanduá-mirim selecionou significativamente a borda de mata, enquanto o bandeira teve as maiores taxas de seleção em campos arbustivos; ainda assim, as densidades das duas espécies foram mais altas na paisagem florestal, e não houve partição clara. As densidades também diferem: no mesmo estudo, 0,15 indivíduo/km² para o bandeira e 0,34 para o mirim. Traduzindo para quem instala câmera: numa borda de mata, a probabilidade de o visitante ser mirim sobe; num campo aberto de forrageio, sobe a de ser bandeira. Mas nenhum dos dois respeita a fronteira o tempo todo — por isso a identificação não pode depender só do lugar. Ela depende do animal.
Porte: a primeira coisa que a câmera mostra
Se você só puder olhar uma coisa numa foto de tamanduá, olhe o tamanho. É o caráter mais robusto, e ele praticamente resolve a dúvida sozinho.
O tamanduá-bandeira é o maior tamanduá vivo: comprimento cabeça-corpo de 1 a 1,4 m, cauda de 60 a 90 cm e peso de 22 a 45 kg. É um animal grande, de silhueta inconfundível, que ocupa boa parte do quadro numa câmera montada na altura habitual. O tamanduá-mirim é de porte médio: 47 a 77 cm de corpo, cauda de 40 a 67 cm e 3,5 a 8,4 kg. A ficha do ICMBio dá “cerca de 7 kg” e 47 a 77 cm de comprimento total para o mirim, valores compatíveis. A conta que mais ajuda a fixar a diferença veio do Pantanal: o bandeira “pode exceder 35 kg, cerca de sete vezes a massa corporal do tamanduá-mirim (aproximadamente 5 kg)”. Sete vezes é muito. Na prática, é a diferença entre um animal do tamanho de um cão de grande porte e um do tamanho de um gato grande ou cão pequeno.
Onde o porte engana? Em dois casos. Filhote de bandeira no dorso da mãe pode confundir a estimativa de tamanho — mas aí há dois animais, e a mãe é enorme. E foto de enquadramento ruim, muito perto ou muito longe, tira a referência de escala. Nesses casos, você passa para os caracteres seguintes — cauda, colete, focinho —, que não dependem de medir o bicho.

A cauda: cerdosa e solta, ou nua e preênsil
Depois do porte, a cauda é o caráter que mais rápido separa as duas espécies — e costuma aparecer bem na foto, porque é grande nos dois.
A cauda do tamanduá-bandeira é longa e coberta de pelos longos e cerdosos, dando aquele aspecto de bandeira ou de vassoura que batiza o animal. Ele a usa como cobertor: dobra a cauda sobre o corpo para se proteger do frio, do sol e da chuva — e para abrigar o filhote. Aliás, um estudo dedicado do ICAS descreveu, ao longo de 266 horas de observação de campo, onze comportamentos distintos de uso da cauda pelo bandeira, a maioria registrada pela primeira vez. Na imagem, procure uma cauda espessa, peluda por igual, muitas vezes erguida ou curvada sobre o dorso.
A cauda do tamanduá-mirim é outra história: preênsil e nua na face ventral, com manchas pretas irregulares na extremidade. Preênsil quer dizer que ele a usa para se agarrar aos galhos, como uma quinta mão — é a cauda de um trepador. Na câmera, ela parece mais fina que a do bandeira, menos “emplumada”, e se o animal estiver perto de um tronco você pode até flagrá-la enrolada. Essa diferença — cauda cerdosa e solta contra cauda nua e agarradora — é uma das mais confiáveis do repertório, porque reflete duas formas de vida distintas: o bandeira que anda no chão, o mirim que sobe nas árvores.
Cauda de vassoura, peluda e dobrada sobre o corpo: bandeira. Cauda mais fina, nua por baixo, pronta para agarrar um galho: mirim.
O colete e o focinho: lendo a cabeça e o dorso
Dois caracteres de padrão fecham a identificação quando o porte não basta.
O colete é a marca do mirim. Sua pelagem é amarela, com duas listras pretas dorsais que descem das escápulas ao tórax e da cauda à genitália e coxas, envolvendo o corpo “e lembrando um colete”. É por isso que ele também é chamado de tamanduá-de-colete. Só que há um detalhe que evita erro: esse padrão varia com a região. Conforme a população, a cor preta pode estar totalmente ausente (animais monocromáticos amarelos), parcialmente presente (os “com colete”) ou tomar quase todo o corpo (animais pretos ou ruivos). Então “tem colete preto e amarelo” confirma mirim, mas “não tem colete evidente” não descarta mirim — pode ser uma população monocromática. O bandeira, por sua vez, não usa colete: tem uma faixa triangular característica delimitada por linhas brancas, que sobe do peito e da garganta em direção ao dorso, sobre uma pelagem cinza a marrom grisalha. As patas dianteiras costumam ser esbranquiçadas, às vezes com uma faixa ou manchas pretas.
O focinho é o segundo. O do bandeira é notoriamente longo — cabeça alongada, boca pequena, circular e sem dentes, de onde sai uma língua que se estende de 35 a 40 cm. O do mirim é da mesma linhagem tubuliforme, mas “não tão longo quanto o do tamanduá-bandeira”; a ficha do ICMBio descreve a cabeça alongada, côncava e estreita, com rosto tubuliforme e boca em pequena abertura circular. Numa foto de perfil, a proporção focinho-cabeça salta aos olhos: o bandeira parece ter o rosto “puxado” num cone comprido; o mirim tem um focinho afilado, porém proporcionalmente mais curto. Foi exatamente essa silhueta — o focinho longo somado à cauda peluda — que identificou o animal do Rio Grande do Sul.
Um caractere anatômico fino, útil quando a pata aparece nítida: os dois têm quatro dígitos com garras no membro anterior, mas no bandeira o segundo e o terceiro dedos carregam garras longas e potentes de escavação, enquanto no mirim a garra do terceiro dedo é a maior — “porém proporcionalmente menor que a equivalente do tamanduá-bandeira”. Traduzindo: garras dianteiras descomunais são do gigante.

Marcha e postura: quem anda no chão, quem sobe na árvore
O modo de se locomover é uma pista que a câmera capta bem, sobretudo em vídeo ou em rajada de fotos.
O tamanduá-bandeira é terrestre e anda sobre os nós dos dedos — o “knuckle-walk”, como fazem alguns primatas —, dobrando as garras dianteiras para dentro ao caminhar para não desgastá-las. O resultado é um andar peculiar, meio bamboleante, de um bicho grande apoiado nos punhos. E é um andar lento: o bandeira “não consegue atravessar rodovias rapidamente”, uma das razões de aparecer tanto atropelado e em câmeras de beira de estrada. Embora seja terrestre, ele escala cupinzeiros de 2 a 3 m e até árvores para forragear ou marcar troncos — então flagrá-lo subindo em algo não é impossível, só é menos comum.
O tamanduá-mirim é escansorial — trepa com desenvoltura. No Pantanal, um terço (33,3%) dos mirins observados estavam forrageando, descansando ou se deslocando em árvores. Ele se alimenta tanto no chão quanto na copa, o que lhe dá acesso a cupinzeiros arbóreos indisponíveis ao bandeira. Quando não está ativo, descansa em ocos de árvore, tocas de tatu ou outras cavidades naturais. Na câmera, portanto, um tamanduá visto num tronco, num galho ou saindo de um oco é quase certamente mirim; um tamanduá grande cruzando o campo aberto no seu andar de punhos é bandeira.

O horário no carimbo da foto: útil, mas não decisivo
Metade da graça da câmera de fauna é o carimbo de data e hora. No caso dos tamanduás, ele ajuda — desde que você saiba o que ele significa e o que não significa.
Ambas as espécies tendem ao noturno e ao crepuscular. No Chaco paraguaio, um estudo com armadilhas fotográficas registrou as duas com pico perto da meia-noite: o bandeira apareceu entre 17 h e 09 h (concentração de 58,8% entre 21 h e 01 h) e o mirim entre 18 h e 02 h (55,4% entre 22 h e 01 h). Num Cerrado do Distrito Federal, o bandeira mostrou padrão noturno e crepuscular, com atividade alta e sustentada das ~18 h à meia-noite (pico por volta das 22 h) e sobreposição baixíssima com a atividade humana, diurna (coeficiente Δ = 0,147). De modo geral, então, uma foto de tamanduá de madrugada é o esperado.
Mas — e este “mas” é importante — o horário é resposta à temperatura, não uma regra fixa da espécie. O tamanduá-bandeira é catemeral: ajusta o período de atividade às condições do dia. A própria ficha do ICMBio resume: acima de cerca de 22 °C ele se torna mais noturno; abaixo de cerca de 15 °C, mais diurno. No Chaco, o bandeira foi detectado entre 11 e 26 °C, e o mirim entre 15 e 23 °C. E o uso da paisagem entra na conta: um estudo com 41 bandeiras equipados com GPS mostrou que eles ficam mais ativos à noite justamente em ambientes antrópicos — pasto, mosaico agrícola, eucalipto —, enquanto descansam mais nas horas quentes dentro de habitat nativo. Some-se a isso que as estações não caem nos mesmos meses ao longo da vasta distribuição lusófona — o calor de verão que empurra o bicho para a noite chega em meses diferentes no Cerrado, no Chaco ou na Amazônia, e se inverte entre os hemisférios. A conclusão prática: use o horário como uma pista a favor (madrugada reforça tamanduá), nunca como o caráter que decide qual tamanduá — para isso, volte ao porte, à cauda e ao colete.
O horário confirma que é tamanduá e sugere quando ele passou; quem ele é, só a silhueta diz.
Pegadas e sinais: o que sobra no chão
Nem sempre o bicho aparece. Muitas vezes o que se tem é o sinal — e vale saber lê-lo, porque a câmera trabalha melhor apontada para onde o animal deixa marca. No Cerrado, como lembra a divulgação científica, os grandes mamíferos são “solitários, discretos e geralmente de atividade noturna ou crepuscular”, de modo que tocas, trilhas, restos alimentares, fezes e pegadas permitem um “safári” indireto — e o tamanduá-bandeira está nessa lista.
A pegada do tamanduá-bandeira é um vestígio documentado: guias de identificação de mamíferos brasileiros trazem a família Myrmecophagidae e uma ilustração rotulada de “pegada de tamanduá-bandeira” entre os rastros do país. Uma ressalva honesta que os próprios guias fazem: em campo, “as pegadas não se apresentam tão nítidas” quanto nas ilustrações, podendo se sobrepor e confundir. Por isso a leitura mais segura soma a pegada ao resto do quadro — o cupinzeiro rasgado ali perto, o horário da foto, o tamanho da marca — em vez de confiar numa impressão isolada. E há um sinal de forrageio específico: o bandeira rasga cupinzeiros e formigueiros com as garras dianteiras para chegar às presas, e escala montes de até 2 a 3 m para isso. Um cupinzeiro aberto por garras potentes, com o entorno revolvido, é uma boa aposta de câmera — foi ali que o animal parou, e é ali que ele pode voltar.

Por que a câmera é a ferramenta certa — e como montá-la
Tudo o que torna os tamanduás difíceis de observar — solitários, noturnos, discretos, de baixa densidade — é o cenário em que a armadilha fotográfica rende. Não à toa, boa parte do que se sabe sobre a distribuição dessas espécies vem de registros de câmera: foi uma câmera que definiu um possível novo limite sul do bandeira, no Parque Estadual das Lauráceas (Mata Atlântica do Paraná), com registros em julho de 2013 e dezembro de 2014; foi uma câmera que confirmou o retorno da espécie ao Rio Grande do Sul depois de 130 anos. E são câmeras e coletes de GPS que sustentam os estudos de comportamento — o Instituto de Conservação de Animais Silvestres já monitorou mais de 100 tamanduás-bandeira desde 2017, com localização a cada 20 minutos. A credibilidade dessa base vem de grupos como o Instituto Tamanduá, dirigido por especialistas do grupo de xenartros da IUCN.
Os parâmetros de instalação convergem entre os estudos. As câmeras dos trabalhos de atividade foram fixadas em troncos a cerca de 45 cm do chão, operando 24 horas por dia. No Chaco, cinco câmeras a 45 cm somaram 1.268 câmeras-dia e, de quebra, registraram 43 espécies silvestres além dos dois tamanduás. Para levantamentos de comunidade, a referência metodológica brasileira sugere esforço de mais de 250 armadilhas-dia por trilha para captar 60% ou mais das espécies, e lembra que o predomínio noturno é regra — cerca de 67% dos registros de mamíferos saem à noite. Um alerta prático do mesmo estudo: câmeras colocadas em pares registraram apenas 27% das fotos de forma simultânea — ou seja, uma única câmera perde boa parte do que passa; se quiser identificação individual ou o dos dois flancos, considere duplicar o ponto. E, como o bandeira forrageia em áreas abertas mas se abriga na mata, vale distribuir câmeras nas duas situações: o campo pega o animal ativo, a borda pega o mirim e o abrigo.
O gargalo, então, deixa de ser o campo e passa a ser a triagem. Uma temporada de câmera numa área de tamanduá enche o cartão de imagens — a maioria noturna, muitas vazias ou de outras espécies —, e achar os tamanduás no meio delas, separar bandeira de mirim e ainda ler a data/hora de cada quadro é um trabalho e tanto.
Uma nota sobre o terceiro: o tamanduaí
Falta o primo pequeno, que quase nunca vai aparecer na sua câmera de trilha — mas que completa o trio e merece a nota. O tamanduaí (Cyclopes), também chamado tamanduá-de-colete-pequeno ou pygmy anteater, é minúsculo: cerca de 20 cm de corpo, cauda de 16,5 a 29,5 cm e apenas ~300 g. É de outra família, a Cyclopedidae, e não da Myrmecophagidae dos outros dois. É arborícola de hábito estrito — “prefere as copas das árvores”, tem dois dedos, focinho curto, hábitos noturnos e alimenta-se só de formigas (nenhum cupim já foi registrado em sua dieta). Por viver no alto e ser tão pequeno, ele praticamente não é flagrado por câmeras montadas ao nível do solo para mamíferos de médio e grande porte — se você registrar um tamanduaí, é notícia. Vale saber ainda que, desde 2018, o que se chamava de uma única espécie de tamanduaí foi reconhecido como ao menos sete espécies de Cyclopes, num trabalho que levou dez anos. No Brasil, o tamanduaí é avaliado como Menos Preocupante, com uma subpopulação amazônica e outra disjunta na Mata Atlântica nordestina.

Conservação: por que a identificação certa importa
Ler o tamanduá certo não é só capricho de caderneta — os dois têm status de conservação diferentes, e contar um pelo outro distorce o retrato da fauna.
O tamanduá-bandeira é Vulnerável. No Brasil, o ICMBio o categoriza como VU (A2bcde), na avaliação de 27 de novembro de 2018 publicada em 2024, com suspeita de perda de pelo menos 30% da população nos últimos 21 anos; globalmente, o grupo de especialistas da IUCN também o lista como Vulnerável, com redução estimada de ≥30% (e <50%) ao longo de cerca de três gerações. Ele já desapareceu de grandes partes do sul de sua distribuição — considerado extinto no Uruguai e no estado de Santa Catarina, e possivelmente extinto em outros estados. As ameaças são perda de hábitat por monoculturas, atropelamentos, incêndios, cães e caça. O agravante para a câmera de estrada está na própria biologia: olhos pequenos que não refletem os faróis, movimento lento e pelagem escura fazem do bandeira um dos mamíferos de grande porte mais atropelados — na BR-262, em Mato Grosso do Sul, é a terceira espécie mais atingida. E a proteção formal é escassa: menos de 10% da distribuição do bandeira em Cerrado e Pantanal está em áreas protegidas, o que faz de cada rede de câmera bem montada nesses biomas uma contribuição real ao conhecimento.
O tamanduá-mirim está em situação mais tranquila — avaliado como Menos Preocupante (LC) no Brasil e globalmente, por ter ampla distribuição e ameaças que não comprometem severamente a população nacional. Ainda assim, sofre com atropelamento (num levantamento no Rio Grande do Sul, quase metade dos mirins encontrados mortos foi por atropelamento) e caça em partes da distribuição. O contraste importa: se um técnico registra “tamanduá-bandeira” onde havia um mirim, superestima a presença de uma espécie Vulnerável; se faz o inverso, deixa de contar um bicho que precisa de atenção de conservação. A leitura correta — porte, cauda, colete, focinho, marcha — é o primeiro passo de qualquer monitoramento sério, e é uma habilidade que se treina olhando a silhueta, o horário e o sinal, um registro de cada vez.
Perguntas frequentes
Qual a diferença mais rápida entre tamanduá-bandeira e tamanduá-mirim na foto?
O tamanho. O bandeira mede 1 a 1,4 m de corpo e pesa 22 a 45 kg; o mirim tem 47 a 77 cm e 3,5 a 8,4 kg — o gigante chega a cerca de sete vezes a massa do mirim. Um animal grande e maciço é bandeira; um de porte médio, do tamanho de um cão pequeno, é mirim.
E se o enquadramento não deixa avaliar o tamanho?
Olhe a cauda e o padrão. Cauda peluda e cerdosa, dobrada sobre o corpo, é bandeira; cauda mais fina, nua por baixo e preênsil (de trepador), é mirim. O colete preto sobre amarelo confirma mirim — mas cuidado: em algumas regiões o mirim é monocromático e não tem colete evidente.
O horário na foto diz qual tamanduá é?
Não diz qual, só ajuda a confirmar que é tamanduá. As duas espécies tendem ao noturno e crepuscular, com pico perto da meia-noite, mas isso é resposta à temperatura, não uma regra fixa — o bandeira fica mais noturno acima de ~22 °C e mais diurno abaixo de ~15 °C, e o padrão varia com a região e o hemisfério.
Vi um tamanduá numa árvore. Qual é?
Quase certamente o mirim, que é escansorial — no Pantanal, um terço dos mirins observados estava em árvores. O bandeira é terrestre e anda sobre os nós dos dedos, embora escale cupinzeiros e, ocasionalmente, árvores para forragear.
Onde devo montar a câmera para pegar tamanduá?
Aponte para o sinal e para os dois ambientes. Cupinzeiros e formigueiros rasgados por garras são bons pontos, assim como campos abertos de forrageio (mais bandeira) e bordas de mata (mais mirim). Fixe a câmera a cerca de 45 cm do chão, 24 horas por dia; uma única câmera perde parte do que passa, então considere duplicar pontos importantes.
O tamanduaí aparece na câmera de fauna?
Praticamente nunca. Com ~20 cm e ~300 g, é arborícola estrito e vive nas copas, longe do alcance de câmeras montadas ao nível do solo para mamíferos de médio e grande porte. Registrá-lo é notícia.